Sim, estou VIVA!
Um homem,
moreno, cabelos pretos e lisos, pele macia. Quente? Talvez. Ainda não
experimentei para poder afirmar isso, apenas senti seu cotovelo junto ao meu
por alguns segundos. Mas foi o suficiente para eu perceber uma espécie de
pontada lá embaixo. Puxa, estou viva.
Lábios
grossos, carnudos, como se fossem de negro. Mas esse homem não chega a ser
mulato, embora o tom de sua pele faça parecer. Belo semblante. Sua figura me
faz imaginá-lo fazendo amor com uma mulher loira, linda, alta, com um corpo
deslumbrante, essas de propaganda de cerveja na televisão. Como se fosse um antídoto
para sua morenice cabocla, oriunda do sertão paraense, cheirando a floresta.
Mas
pelo que os amigos dizem, o belo rapaz não tem namorada e embora esteja
chegando à casa dos quarenta anos, nem mulher, nem filhos. Sua grande paixão
são os papers, aqueles artigos
científicos que os acadêmicos precisam publicar. E ele leva muito a sério essa
função. Tão a sério que não dá para fazer mais nada, a não ser escrever os
benditos/malditos papers.
O belo rapaz
faz isso muito bem. Doutorado e pós no Canadá. Fala três ou quatro idiomas. Tem
a voz grossa e quando defende um ponto de vista, é com certeza e discernimento,
usando vários argumentos convincentes. À platéia que o assiste resta apenas balançar
a cabeça em sinal de sim.
Com freqüência
se atrasa para as reuniões de área e colegiado, pois seu tempo é precioso. Ao
chegar, de braços dados com seu laptop, sua companhia mais constante, dá um
sorriso com palavras de desculpas aceitas por todos. É um sinal de respeito
pelo professor mais brilhante da equipe.
Mas aos meus
olhos as coisas são diferentes. Os seus louros acadêmicos não me mobilizam, me
atraem seus lábios carnudos. E nos meus sonhos me sinto beijada por eles. E
fecho os meus olhos para senti-los, úmidos e quentes a roçar meu corpo, minha
boca, meu sexo. E meu coração dispara, me sinto arder por dentro, me torno enebriada
por esses pensamentos, peço que sejam sonhos verdadeiros, eternos! Como uma
adolescente, meus olhos brilham; sorrindo sozinha sinto um orgasmo platônico
que me arrepia toda.
E ao acordar,
me deparo com a realidade. Como meus sonhos são fugazes e longínquos. Em meu
íntimo, tenho a certeza que se fosse há trinta anos, esse belo rapaz não me
passaria em branco.
Agora preciso lidar com os fantasmas que rondam minha mente;
acredito serem frutos do condicionamento que recebi sobre o viver muito e mais,
os anos que pesam, a idade que limita os prazeres terrenos, não seja uma mulher ridícula!
Procuro não
acreditar, luto com essas limitações, sim sou a mesma, eu ainda sou aquela
mulher ardente! E continuo dando asas à minha imaginação. Quero sentir o
coração desse homem! Sim, ele tem um coração que pulsa, tem sangue e testosterona
em suas veias. Outro dia ele afirmou em uma reunião “sou um cabra macho”. Isso
atiçou ainda mais a minha fêmea, que anda morna devido à ausência dos hormônios, mas está viva! Sim estou viva, o sangue também corre em
minhas veias, meu coração bate com a possibilidade de ser amada.
Lembro da peça
que assisti recentemente, “ensina-me a viver”, uma estória de amor entre um
jovem em seus vinte anos com uma mulher de oitenta. Percebo o quanto estamos,
esse belo rapaz e eu, longe desses extremos; a distância entre nós é muito mais
curta! Tenho a certeza que tudo é possível. Sonhar, manter o fogo da paixão.
Sim, estou
viva!
Brasília, 2011
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