domingo, 9 de setembro de 2018

Crônicas de Amores Não Vividos - 3




                                                      Sim, estou VIVA!


Um homem, moreno, cabelos pretos e lisos, pele macia. Quente? Talvez. Ainda não experimentei para poder afirmar isso, apenas senti seu cotovelo junto ao meu por alguns segundos. Mas foi o suficiente para eu perceber uma espécie de pontada lá embaixo. Puxa, estou viva.

Lábios grossos, carnudos, como se fossem de negro. Mas esse homem não chega a ser mulato, embora o tom de sua pele faça parecer. Belo semblante. Sua figura me faz imaginá-lo fazendo amor com uma mulher loira, linda, alta, com um corpo deslumbrante, essas de propaganda de cerveja na televisão. Como se fosse um antídoto para sua morenice cabocla, oriunda do sertão paraense, cheirando a floresta.

          Mas pelo que os amigos dizem, o belo rapaz não tem namorada e embora esteja chegando à casa dos quarenta anos, nem mulher, nem filhos. Sua grande paixão são os papers, aqueles artigos científicos que os acadêmicos precisam publicar. E ele leva muito a sério essa função. Tão a sério que não dá para fazer mais nada, a não ser escrever os benditos/malditos papers.

O belo rapaz faz isso muito bem. Doutorado e pós no Canadá. Fala três ou quatro idiomas. Tem a voz grossa e quando defende um ponto de vista, é com certeza e discernimento, usando vários argumentos convincentes. À platéia que o assiste resta apenas balançar a cabeça em sinal de sim.

Com freqüência se atrasa para as reuniões de área e colegiado, pois seu tempo é precioso. Ao chegar, de braços dados com seu laptop, sua companhia mais constante, dá um sorriso com palavras de desculpas aceitas por todos. É um sinal de respeito pelo professor mais brilhante da equipe.

Mas aos meus olhos as coisas são diferentes. Os seus louros acadêmicos não me mobilizam, me atraem seus lábios carnudos. E nos meus sonhos me sinto beijada por eles. E fecho os meus olhos para senti-los, úmidos e quentes a roçar meu corpo, minha boca, meu sexo. E meu coração dispara, me sinto arder por dentro, me torno enebriada por esses pensamentos, peço que sejam sonhos verdadeiros, eternos! Como uma adolescente, meus olhos brilham; sorrindo sozinha sinto um orgasmo platônico que me arrepia toda.

E ao acordar, me deparo com a realidade. Como meus sonhos são fugazes e longínquos. Em meu íntimo, tenho a certeza que se fosse há trinta anos, esse belo rapaz não me passaria em branco. Agora preciso lidar com os fantasmas que rondam minha mente; acredito serem frutos do condicionamento que recebi sobre o viver muito e mais, os anos que pesam, a idade que limita os prazeres terrenos, não seja uma mulher ridícula!

Procuro não acreditar, luto com essas limitações, sim sou a mesma, eu ainda sou aquela mulher ardente! E continuo dando asas à minha imaginação. Quero sentir o coração desse homem! Sim, ele tem um coração que pulsa, tem sangue e testosterona em suas veias. Outro dia ele afirmou em uma reunião “sou um cabra macho”. Isso atiçou ainda mais a minha fêmea, que anda morna devido à  ausência dos hormônios, mas está viva!  Sim estou viva, o sangue também corre em minhas veias, meu coração bate com a possibilidade de ser amada.

Lembro da peça que assisti recentemente, “ensina-me a viver”, uma estória de amor entre um jovem em seus vinte anos com uma mulher de oitenta. Percebo o quanto estamos, esse belo rapaz e eu, longe desses extremos; a distância entre nós é muito mais curta! Tenho a certeza que tudo é possível. Sonhar, manter o fogo da paixão.

Sim, estou viva!

Brasília, 2011

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