Uma ida despretensiosa a uma terapia corporal. Uma atividade
que faço rotineiramente, há anos. Geralmente seguida por um delicioso bolo com
cappuccino, na lanchonete do térreo, daquele antigo centro comercial, no centro
da cidade.
Só que, naquela tarde, eu usava uma calça tipo colante, de
malhar e caminhar no parque e que eu não costumava usar assim, na rua. Mas lá estava
eu, saindo do elevador, quando senti uns olhos pousados em mim. Um sujeito
simpático e gostei do seu olhar. E não é que ele também estava indo pra terapia?
Na sala de espera, sentados frente a frente, conversamos.
Sobre os benefícios dessa prática, que ele também fazia há tempos. E outros temas que não me lembro; isso foi há
dois anos.
Mas o que lembro bem foi o impacto desse encontro. Um homem
que despertou algo adormecido em mim, que não sentia há tempos. Fui atraída por sua aparência física, seu tom
de voz e o sorriso do seu olhar.
Saí primeiro da sala, mas com vontade de prolongar esse
encontro. Ele ficou para trás, eu peguei o elevador e desci. Ao invés de ir direto tomar meu café,
perambulei pelos corredores, sabendo que ele deveria descer por ali. Esperei perto da saída, assim como quem não
quer nada, a fim de reencontrá-lo novamente, mas totalmente “por acaso”.
E não é que deu certo? Conseguimos conversar por mais meia
hora, ali, em pé, na saída do edifício. Apresentações, trabalho, essas coisas,
que não necessariamente nos fazem conhecer alguém. Eu fiquei contente por ter prolongado esse
contato, por saber que tinha um blog, que gostava de escrever, que tinha vários
filhos. Coisas em comum.
Fui pra casa com essa sensação gostosa de saber que ainda
existem no mundo homens interessantes e que, sim, eu me sentia atraída por eles.
Conseguia imaginar uma aproximação afetiva, uma intimidade e cumplicidade
sexual. Cheguei a comentar com uma amiga
sobre esse encontro e a fascinação que me tomou, repentinamente.
Nos dias seguintes li o seu blog e trocamos uma mensagem. Eu
queria conversar mais, mas não aconteceu. Tive uma gripe forte que me levou a
cancelar uma possível probabilidade de
aproximação. Ele comentou que tomava a vacina contra gripe. A essas
alturas, além do mal estar e da tosse, eu já não acreditava nesse reencontro. O encanto tinha desaparecido, só restava uma
vaga lembrança daquela tarde mágica.
Tempos depois recebi uma mensagem dele na internet. Viu meu
perfil e gostou do meu sobrenome. Outros
tempos depois, um convite dele para participar de uma rede social. E após quase dois anos, nova mensagem, agora perguntando
se eu lembrava que tínhamos nos conhecido naquela terapia. Sorri internamente e
os bons sentimentos vividos voltaram imediatamente.
Resolvi ousar e o convidei para um café. E não é que
conseguimos nos encontrar?
Senti o mesmo encanto da primeira vez. Atração por sua aparência física, por seu
agradável tom de voz e pelo seu olhar, com um brilho sedutor. Fiquei à vontade
para flertar. E a conversa estava ótima.
Na despedida senti vontade de dar um beijo. Um beijo na
boca, adolescente, gostoso, no meio do estacionamento. Ele fez um movimento
nesse sentido; na hora senti uma reação do meu corpo, como um despertar do
desejo. Mas fui impedida pela minha crença judaico cristã. “Não, ele é casado!”
E nos despedimos bem comportados.
Imediatamente,
minutos depois, senti um arrependimento e fiquei indignada comigo mesma. Como,
a essas alturas da vida, não sigo meu instinto? Por que esses condicionamentos
sociais ainda estão dentro de mim, me impedindo de sentir prazer, de ser feliz,
de rir à toa? Para que faço o exercício permanente de viver o aqui e agora, sem
expectativas, sem criar estórias e, de repente, deixo o momento presente
escapar assim?
Afinal existem muitas possibilidades. Ele pode ser adepto do
relacionamento aberto ou do poliamor. Ou gosta de encontrar outras mulheres,
fora do casamento. Ou simplesmente olha para elas, imaginando possibilidades
que alimentam suas fantasias e fica por aí mesmo, sem envolvimentos. Não sei.
Que homem é esse?
Sim, é casado, e daí? Quem proibiu de beijar um homem casado?
Eu quero beijar esse homem.
Alto Paraíso, novembro de 2018.
Bela crônica de momentos. Os caminhos e encruzilhadas de cada momento nos levam a acreditar que nada acontece por acaso e a possibilidade do aprendizado e do crescimento se apresenta de diversas formas. Um mistério que não vale a pena desvendar, apenas viver........enquanto dure.
ResponderExcluir