quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias Veneração, fé, ídolos e religião





Quando menina, com uns 9 ou 10 anos de idade, morávamos no sítio. Em uma noite, a lua estava cheia, luminosa, por entre as nuvens. Não dava para ver o formato dela, mas apenas os raios de luz, brilhando no céu. Uma imagem muito esplendorosa e até hoje, ao fechar os olhos, consigo visualizá-la. Mas o mais importante foi o que se passou dentro de mim, naquele momento.

Na minha imaginação infantil e por estudar no Colégio Adventista, onde o mantra mais cantado era “Jesus em breve virá”, achei que sim, era chegado o momento, Jesus estava chegando!  Eu não tive uma orientação religiosa em casa, pois minha mãe mesmo sendo espírita, achava que deveríamos escolher a religião quando fôssemos adultos e o meu pai não ligava para nada disso. Só que no Colégio, a vocação religiosa era muito forte, o que acabou me influenciando.

E, naquela noite, com um misto de assombro, surpresa e até medo, fiquei olhando para o alto, pela janela da sala, até que a lua apareceu e desfez o encantamento, mas de uma forma linda. Naquele momento, senti um contato intenso com o meu divino interior e acredito que ali nasceu a minha fé, que me acompanha até hoje.

Com relação às pessoas que eu admirava em minha infância, vem a lembrança do meu falso avô, o vô Malta, marido da professora que criou minha mãe. Ele era um homem culto, jornalista, e isso me fascinava. Não havia ninguém como ele na família, do ponto de vista intelectual, quero dizer. Lembro que sempre tinha um livro, revista ou jornal em suas mãos. Conversava com outras pessoas, tinha amigos com quem discutia política e outros assuntos. Era um brasileiro cidadão do mundo. Naquela época não era fácil viajar e muito caro também; privilégio dos ricos. Por isso não viajava para o exterior, embora, em minha imaginação infantil, conhecesse todos os lugares do planeta.

Outro homem que eu admirava era o meu verdadeiro avô materno, que exercia um grau de fascinação sobre minha menina. Augusto Penna Firme era o seu nome. Caiçara, conhecedor de ervas e remédios naturais; hoje me lembra um Xamã ou Pajé, algo de que não tinha a mínima noção do significado, na época.
O Paulo, meu primo mais velho, era ligado às artes. Tocava piano e era fotógrafo. Eu o admirava por essas qualidades, mas nunca fomos próximos; na realidade ele era uns cinco anos mais velho que eu e nunca me deu a menor bola. Mesmo assim, eu gostava dele e foi o primo que teve uma trajetória não muito feliz; tornou-se alcoólatra e morreu antes de completar 50 anos, do coração. Para desgosto de minha tia Dora, uma mulher que me encantava.

A Tia Dora era linda, espontânea, alegre; casou-se com um homem rico, de família tradicional paulistana. Tinha um nível de vida bem superior ao nosso. Os filhos dela, Paulo e Marcos, foram criados com muita mordomia. Sempre nos visitava e tinha opiniões modernas sobre a vida e dizia o que pensava, quando conversava com a minha mãe, que era o oposto dela. Mesmo assim, eram boas amigas. Fazia longas viagens para o exterior e depois nos contava tudo. Ela enchia a casa com a sua energia. Eu a admirava muito, acredito que era um tipo de mulher que minha menina gostaria de ser, quando adulta.

Como eu ouvia rádio com frequência, os cantores me fascinavam. Beatles, Rita Pavone, Celly Campelo, Roberto Carlos e toda a turma da Jovem Guarda. Eu não perdia um programa deles na televisão. Adorava dançar “ Tomo um banho de lua...” Sabia todas as letras das músicas de cor. Mas além do rock, eu tinha também uma veia mais romântica e gostava de ouvir Dolores Duran ( A noite do meu bem) Nelson Gonçalves( Fica comigo essa noite), Carlos José ( Esmeralda), Cauby Peixoto ( Marina ), entre outras. Acho que devido à influência do meu pai, que era fã da Ângela Maria, a ponto de despertar ciúmes em minha mãe.

Ah, sim. Esse era o homem que eu mais admirava, meu pai. Ele era dinâmico, entusiasmado, otimista, um guerreiro. Sempre cheio de sonhos, planos, nunca se acomodou. Batalhava para garantir uma vida melhor para a família. Não tinha dinheiro, mas viajamos muito porque ele resolveu aprender a acampar, algo nada comum na década de 1960. Tornou-se sócio do Camping Clube do Brasil e por conta disso, conhecemos vários lugares, de norte a sul do país. Por trás daquela máscara de autoritário, havia um menino sensível, lúdico e sonhador, que gostava de descobrir novas paisagens. Isso me encanta e traz muitas saudades. Ele ainda é uma das pessoas que mais admiro/ admirei em minha vida.

01/07/2020
Alto Paraíso de Goiás




Memórias O mundo dos adultos




Meu pai, nascido em 1924 e criado “como homem”, trouxe para a sua família o machismo e autoridade inquestionáveis. E transmitiu muito bem esses conceitos retrógrados, principalmente para os filhos, pois minha mãe sempre foi uma mulher dona de suas opiniões, que não se submetia a ele e conhecia muito bem as estratégias para se manter firme em suas decisões e convencer meu pai delas.

Nos primeiros anos da infância, a autoridade desse casal sobre os filhos era diária e permanente. Não podíamos fazer muitas coisas como brincar na rua ou dormir na casa dos amiguinhos, inexistentes. Mas eles nunca foram de nos castigar fisicamente, com força. Meu pai costumava deixar um cinto de couro pendurado atrás da porta e quando estávamos mais rebeldes, ele nos ameaçava, mas nunca nos bateu. Apenas o seu olhar era suficiente para nos colocar no devido lugar.

Já mamãe, dependendo do dia, nos dava umas palmadas, quando estava irritadiça. Ela também usava uma estratégia que eu odiava. Quando não correspondíamos à sua vontade, principalmente eu, ela “dava um gelo”. Aquilo me aniquilava internamente. Ficava um dia inteiro ou até dois, sem falar comigo. Eu era o alvo principal, pois a vida toda, meus irmãos foram mais próximos de minha mãe. Parecia que eu era uma ameaça constante, pelo meu jeito de agir e pensar, desde criança.  Dizia que eu parecia visita dentro de casa, por gostar de ficar sozinha e costumava comentar, em tom sarcástico, que eu era muito “evoluída”, com relação às questões morais. Eu dizia o que pensava, desde mocinha, o que contrariava seu espírito conservador. Mas, pelo menos com ela, conseguíamos conversar.  Afirmava que achava muito importante dialogar com os filhos e manteve isso por toda a vida.

Até os meus dez, onze anos de idade, meu pai foi muito carinhoso comigo e com meus irmãos. À medida que eu entrei na adolescência e passei a questionar algumas coisas em casa, ele se afastou, fisicamente. Reprimia meu jeito de ser. Não aceitava minha transformação de menina para mulher. Ou que queria ter amigos, ir às festinhas e a partir dessa fase, nossa relação piorou muito. Para pedir alguma coisa eu conversava com minha mãe, que fazia a ponte de comunicação do pai com os filhos. Quando não dava certo, eu chorava muito, fazia um verdadeiro escândalo dentro de casa, colocando à mostra minha rebeldia, o que os deixava muito contrariados.

Ele sempre utilizou sua autoridade para nos reprimir e eu achava isso uma injustiça. Por ser a filha mais velha, fui a mais prejudicada. E a minha irmã, embora fosse apenas um ano mais nova que eu, tinha outra personalidade e não sofreu tanto, imagino. Já o meu irmão mais novo, por ser o único filho homem, nossa, coitado, foi muito pressionado pelas exigências de meu pai, para que exercesse seu papel masculino, com força e perfeição. Hoje entendo as dificuldades de meu irmão; ele era uma garoto sensível e suave, nada daquilo que meu pai pregava condizia com a sua personalidade.
Minha primeira professora era uma mulher autoritária e nada afetuosa, o que fez de minha primeira experiência escolar algo muito desprazeroso. Com ela eu aprendi a ser dissimulada e mentirosa aos sete anos de idade. Não gostava de fazer a lição de casa e quando ela passava de carteira em carteira para olhar os cadernos, eu dava um jeito de me esconder na enorme sala com mais de 30 alunos, ou ir ao banheiro sem vontade, ou beber água sem sede.  Pedia para a empregada lá de casa escrever a lição para mim. Impressionante como eu tinha coragem de fazer isso e ela fazia!  Um dia minha mãe ficou muito brava conosco, a empregada e eu, quando pegou o meu caderno e viu a letra que não tinha nada a ver com a minha.

Quando mudei de escola, tive uma professora maravilhosa, a Dona Ruth. Ela mantinha a ordem da classe com suavidade e leveza e colava estrelinhas em nossos cadernos, quando fazíamos a lição direitinho. Passei a ser uma colecionadora de estrelinhas douradas, além de me tornar uma das melhores alunas da classe. Não tinha do que me rebelar, sua amorosidade me estimulou a ter amor e prazer pelos estudos.
Sempre fui uma rebelde e isso se acentuou em minha adolescência e vida adulta.  Desde cedo percebi que não adianta nada ser repressor e chato com as crianças; isso causa o efeito contrário. E claro, criei meus filhos de outro jeito, bem diferente dos meus pais comigo. Deu certo!

27/06/2020
Alto Paraíso de Goiás



Memórias Os fatos que marcaram minha vida






Nasci em uma maternidade pública da Vila Mariana, São Paulo, em 1950. Sou a primeira filha de minha mãe e ela sempre disse que meu parto foi “duro”. Posso imaginar, pois minha avó materna não resistiu ao dar à luz a seu terceiro filho, tendo deixado minha mãe, com apenas três anos de idade, órfã.

Meus pais foram pessoas muito simples, que se encontraram na prefeitura de SP, onde trabalhavam em cargos administrativos de baixo escalão. Meu pai começou aos catorze anos como um tipo de office boy, na época. Minha mãe fez um concurso simples, onde teve que cantar o hino nacional e aos 27 anos iniciou sua jornada de trabalho para toda a vida, algo não muito comum para as mulheres naquele tempo. Foram três filhos seguidos, eu, a primeira mulher, que frustrou as expectativas de meu pai, que queria um menino; minha irmã, a segunda, que foi pelo mesmo caminho e, por último, o desejado homem, meu irmão mais novo.

Tive uma infância com uma família sólida e estruturada, por um lado e por outro, com muitas atribulações. Meu pai era um sonhador, ambicioso e extremamente insatisfeito. Rapidamente as coisas deixavam de ter graça, aí ele buscava novos desafios para ganhar mais e poder deixar de ser um mero funcionário público. A maioria de suas iniciativas foram um fracasso, que nos deixavam sem dinheiro, ou obrigavam minha mãe a se ausentar do trabalho, algo que ela detestava. Quando estava bem financeiramente, saíamos para acampar e fizemos muitas viagens pelo Brasil. Foram muito amorosos, com os filhos e como casal e ficaram juntos por quarenta e nove anos e meio, quando ele fez a passagem.

A partir da adolescência, a vida se tornou bem mais difícil para mim, que era uma garota aberta, com muitos amigos, porém severamente cerceada em meus desejos, pelos meus pais. Não me lembro de ter dormido uma noite sequer na casa de uma amiga. Os horários eram rígidos. Se quisesse ir a uma festa, só com a companhia de minha irmã, que era completamente diferente de mim e não gostava de sair. Namorar, só escondido. Minha mãe não me ensinou sobre sexualidade, ela nunca recebeu nada nesse sentido. A única exceção foi falar sobre menstruação, pois achava um absurdo as mulheres menstruarem sem saberem o que estava acontecendo. O que mais me marcou foi o distanciamento do meu pai, quando me tornei mocinha. Acho que a mulher que estava despertando em mim o assustava.
Acredito que, por conta disso, casei cedo. Tudo que queria era sair de casa e aos dezenove anos, encontrei meu primeiro homem. Casei aos 21, quando ainda cursava a universidade. Foi uma época muito boa, de amor, cultura e liberdade individual. O momento era de forte repressão política; meu marido buscava por uma bolsa de doutorado no exterior e no auge da ditadura, conseguimos sair do Brasil e morar em Oxford, Inglaterra, onde vivemos por quase quatro anos. Lá tive meu primeiro filho. Costumo brincar que enquanto meu companheiro fazia seu PHD em astrofísica, eu fazia o meu em “housewife”.

Quando voltamos ao Brasil fomos morar em Natal, Rio Grande do Norte, onde viviam meus sogros. A Universidade Federal do RN requisitava pessoas de várias partes do país para compor seu corpo docente. Depois de anos de frio cinza e tradições inglesas, nada melhor que chegar em uma cidade ensolarada, à beira mar, com muita gente animada, sensualidade à flor da pele, festas, saraus, trocas intensas em todos os níveis. Meu casamento não resistiu e passei a viver a minha segunda adolescência, agora com toda liberdade que eu queria. Foram anos intensos. Me tornei professora, entrei para um grupo de teatro, passei a dividir um apartamento com uma amiga e o filho dela, amigo do meu filho.

Quatro anos depois conheci meu segundo marido, também potiguar, que estava de volta à cidade natal, depois de ter morado desde criança no Rio de Janeiro. Foi um grande encontro que modificou minha vida. Em três meses de namoro, optamos por viver juntos, primeiro em Recife, onde fui fazer o mestrado e depois em Brasília, onde fixamos residência e formamos nossa família. Conhecemos a Chapada dos Veadeiros que passou a ser o nosso local de lazer predileto, até que optamos por morar em Alto Paraíso, onde criamos nossos quatro filhos, por oito anos. O mais velho, quase adulto, permaneceu em Brasília.

São inúmeros fatos e causos dessa época, mas para resumir, o casamento acabou e voltei para Brasília, onde retomei minha vida acadêmica, acabei de criar os filhos e vivi por mais vinte anos. Sim, mas não foi assim tão simples quanto parece. Foi uma fase de grandes turbulências que culminaram com minha volta à capital. Sonhos desfeitos, corações partidos. Paixão avassaladora, fundo do poço. Abandono, tristeza, rejeição e culpa, que ainda reverbera nos dias atuais. Esse é o resumo dessa época.

Saí da casa onde pensei que viveria até meu último dia. Voltei ao trabalho que julgava que nunca mais iria fazer. E fui morar, de novo, em um apartamento na Asa Norte, com os meus cinco filhos (sim, até o mais velho se juntou a nós), gato e cachorro. Mas o saldo foi positivo. Lambi as feridas e reconstruí minha vida. Fiz doutorado, voltei para a universidade, a mesma onde todos os meus filhos entraram e se formaram, fato que me traz alegria e orgulho.

Nunca mais vivi um amor, um namoro mais longo, muito menos um casamento. Me tornei avó de repente, sem nenhum planejamento. Minha única filha mulher engravidou, aos 19 anos, de seu namorado de 18. Desde então convivo com minha linda Isadora, agora com 7 anos. Elas moram comigo, aqui em Alto Paraíso, onde decidi passar um tempo, depois que me aposentei. Não sei até quando irei continuar aqui; me parece que essa volta foi para passar minha vida a limpo e ressignificar o que aconteceu naquela época. Tenho vivido um dia de cada vez. Muitas vezes sonho em partir, para um novo tempo, cheio de amor e aventuras.

30 de Abril de 2020
Alto Paraíso de Goiás

Memórias Minha memória mais antiga da infância




Fui uma criança privilegiada, pois tive três avôs. O pai biológico de minha mãe, o vô Augusto. O pai biológico do meu pai, o vô Eliziário. E o vô Malta, marido da mãe de criação de minha mãe, que a adotou quando ela tinha uns oito ou nove anos de idade. A vó Hercília, avó torta, mas a única que realmente desempenhou esse papel na minha infância e na de meus irmãos.
O vô Malta era um homem culto, jornalista, ficou viúvo cedo com três filhas pequenas. Conheceu a vó Hercília, não sei onde nem como, mas acabaram se casando e formaram uma grande família, com quatro filhas mulheres.

Era na casa do vô Malta que passávamos os domingos e recebíamos mimos dos dois, desde que nasci. Uma casa acolhedora no bairro do Ipiranga, em uma rua tranquila, residencial. Me lembro que passeávamos no meio da rua, apesar das calçadas em ambos os lados. Era tão tranquilo; para que ficar no limite das calçadas se podíamos usufruir do espaço aberto de uma rua inteira?
E mais uma vez saímos para passear com meu avô, uma tarde qualquer; acredito que eu deveria ter uns quatro anos de idade. Estávamos eu, minha irmã e ele. Meu irmão mais novo era ainda um bebê nessa época.

Nesse dia, antes do passeio, eu estava brincando com a maquiagem de minha tia Dinah, filha mais nova do vô Malta. Dessa cena eu não me lembro exatamente. Mas lembro que a tia Dinah fazia muitas brincadeiras comigo e com minha irmã e provavelmente me ensinou a usar um batom, imagino, além do esmalte para as unhas. Eu fui passear me sentindo toda faceira, contente com o meu visual, inocente e feliz.

Saímos de casa e começamos nossa caminhada. O meu avô, distraído, pensando em alguma coisa, olhando para a rua e segurando as netas, uma em cada mão, nem percebeu, naquele momento, que eu estava pintada. Até que, no meio do caminho, me olhou no rosto, parou de andar e com o olhar severo, soltou nossas mãos. Não gostou do que viu.  Ficou indignado, afinal uma menina tão pequena, de batom e com unhas pintadas?  Com rispidez mandou eu ir imediatamente para casa tirar tudo, o batom, o esmalte, ou não iria continuar o passeio.

Essa cena foi impactante para mim, acredito que tenha sido a primeira repressão masculina em meu feminino. Eu estava contente, passeando, me sentindo linda e, de repente, recebo uma cortada violenta de alguém que eu amava muito. A ponto de eu nunca mais me esquecer desse fato, quando eu tinha apenas quatro anos de idade.

O que aconteceu depois eu não me lembro. Devo ter ido correndo pela rua deserta, chegado em casa e pedido ajuda da minha tia. E voltado a encontrar com ele e minha irmã, no mesmo local, agora com a cara limpa e as unhas incolores.
Obedeci, como faziam sua mulher e filhas. Nunca iria dispensar um passeio com o meu querido Vô Malta. Muito menos desagradá-lo.


A memória mais antiga contada por minha mãe
Uma garotinha de menos de três anos no berço. Acordou cedo e estava lá, sozinha, brincando distraída, fazendo suas necessidades fisiológicas matinais. A fralda estava cheia e vazou. O cocô saiu e ela, em plena fase anal, se interessou pelo que viu. Resolveu pegar, sentir o cheiro e a textura. Ainda não satisfeita, experimentou fazer uma arte e espalhar seu material de trabalho por toda a extensão de seu corpo, dos lençóis e do berço.

O silêncio da menina era preocupante, mas não durou muito. Logo sua mãe sentiu um cheiro bem desagradável no ar e foi ver o que estava acontecendo. Ao chegar lá, não teve dúvidas nem receio de também ficar lambuzada. Pegou a menininha e encheu de boas palmadas, pra aprender a não fazer lambança.

Minha mãe contou essa estória algumas vezes, o que me fazia sentir um certo desconforto. Ela, por sua vez, passava a sensação que tinha agido muito bem, ao me ensinar a lição e ter me dado “uma sova”, termo que gostava de usar para ameaçar os filhos quando faziam bagunça ou brigavam entre si. Sentia um tipo de orgulho, por sua ação tão primitiva e instintiva, sem a mínima noção do que significava fase anal.

Até hoje, mais de meio século depois, ainda sinto algum tipo de ressentimento, tristeza até, quando lembro desse fato.  Pra que apanhar por ser curiosa, para que bater em                                    criança com pouco mais de dois anos?

Coisas de minha mãe; esse foi apenas um primeiro episódio dentre muitos. Ela tinha um modo automático de lidar com as coisas. Sujou, limpou, guardou, assim, sem nem respirar, para dar conta das inúmeras tarefas do dia. E eu era mais uma tarefa que precisava dar conta e, naquela manhã, deve ter se sentido sobrecarregada. Descarregou sua raiva. Sujeira, cheiro de cocô, lençóis sujos, berço pra limpar, culpa. E ainda uma outra menininha esperava para ser amamentada.

11/05/2020
Alto Paraíso de Goiás

Memórias O significado do meu nome




O Significado do meu nome: Lívia

Segundo o Google, Lívia significa "pálida", "lívida" ou "clara". O nome Lívia é a variante feminina de Lívio, que tem origem a partir do latim liviu, que significa “lívido" ou "pálido”. A explicação para o significado deste nome é dado a um antepassado de uma família romana que seria pálido ou que teria a pele bastante clara.

Sou morena, desde que nasci e não foi essa descrição que levou meus pais a me darem esse nome, bem pouco comum na década de 1950. Atualmente é  muito usado; quando era professora tive muitas alunas Lívia, minhas xarás.

Minha mãe, espírita desde os quinze anos de idade, leu o livro “Há dois mil anos”, romance psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, com autoria atribuída ao espírito Emmanuel e que foi publicado pela primeira vez, no ano de 1939, pela Federação Espírita Brasileira.

Esse livro relata a estória do Cristianismo no século I e tem três personagens importantes, que são a Livia, a Flávia e o Públio. Minha mãe se encantou com o romance e resolveu dar o nome da Livia, para mim. Meu irmão chama-se Públio. E minha irmã, Eliane, pois parece que a personagem Flávia era má e ela não quis trazer esse legado para o nome da segunda filha.

Essa é a estória do meu nome. Nunca tive curiosidade de ler o romance citado, embora esteja entre os dez melhores romances espíritas publicados no século XX. Acredito que seja porque não tenho muita paciência com a doutrina espírita.


Maio 2020
Alto Paraíso de Goiás



Memórias O dia do meu nascimento




O Dia do Meu Nascimento

Nasci em São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Fui a primeira filha de minha mãe, ela estava com 29 anos e comentava comigo que, na época, já era considerada uma mulher “velha” para casar, mas que mesmo assim “deu tempo” dela ter seus filhos, três, um atrás do outro. E se arrependeu de não ter tido um quarto, que, segundo ela, poderia ter feito companhia para o meu irmão mais novo, o único do sexo masculino.

Foi um parto normal, demorado, o que é comum para as mulheres marinheiras de primeira viagem. Mas sempre minha mãe enfatizava esse fato quando conversava comigo sobre meu nascimento. Nunca demonstrou qualquer alegria pela minha vinda; nem ela, nem meu pai, que queria um filho homem. Era um fato corriqueiro, absolutamente esperado, para as mulheres daquela época, após o casamento. Mas nasci uma bebezinha linda e séria, e aos poucos, fui ganhando o amor e cuidado dos dois, que faziam de tudo para eu dar uma risadinha.

Quando imagino esse dia na vida da minha mãe, vem muita coisa em minha imaginação. Podem ser lembranças do inconsciente ou apenas fantasias que criei ao longo do tempo. Eu precisei trabalhar em minha vida adulta, um profundo sentimento de medo e rejeição, que acredito ter se originado ainda quando eu estava no ventre de minha mãe. Minha avó materna morreu em um trabalho de parto quando ela tinha apenas três anos. Além de uma infância muito difícil, esse fato deve ter deixado marcas profundas em seu inconsciente, que podem ter vindo à tona em sua primeira gravidez e eu senti tudo. Essa é a única explicação que encontrei depois de muita terapia. Cheguei a conversar com minha mãe sobre isso, quando eu já era adulta, mas ela nunca aceitou essa ideia, naturalmente.

Hoje fui pesquisar mais sobre o dia em que nasci e descobri, para a minha surpresa, que esse é o Dia Nacional da Televisão, no Brasil, pois em 18 de setembro de 1950 foi inaugurada a TV Tupi em São Paulo, o primeiro canal de televisão no país. Outro fato interessante é que menos de vinte dias depois do meu nascimento, Getúlio Vargas foi eleito presidente do Brasil, no dia 3 de outubro de 1950.

Tenho uma memória de menina, que ficou marcada, em relação à televisão. Meu pai achava que era coisa do diabo. Uma vez, estávamos na casa do meu avô e a televisão estava ligada; eu devia ter uns cinco, seis anos. Estávamos todos fixados na tela, eu e meus irmãos, inocentemente, olhando o que se passava e de repente, houve uma cena de violência; dois homens brigavam, um deles puxou uma faca. Meu pai ficou muito bravo e alterado por termos visto aquilo e mandou a gente ir imediatamente pro carro, sem quase nem dizer até logo pro meu avô.  A cena do meu pai foi mais chocante que a  da TV em si; a verdade é que nunca me esqueci de nenhuma das duas.  Isso, de certa forma, está relacionado com o dia do meu nascimento, quando trouxeram essa obra do demônio para o Brasil.

Com relação ao presidente Getúlio Vargas, só lembro que ele cometeu suicídio, quando eu tinha 4 anos de idade. Foi um fato que também nunca me esqueci, pelas reações e comentários que tiveram em minha casa, que devem ter tocado meu coração infantil.
Mas isso não faz parte do dia do meu nascimento; é que memória é assim, uma coisa leva à outra...

03/05/2020
Alto Paraíso de Goiás


Memórias Ninho, o aconchego da primeira infância




Ninho: O aconchego da primeira infância


Lembro que, a partir dos seis anos de idade, mudamos para a casa nova que meu pai construiu. Ficava na periferia de São Paulo, Vila das Belezas. Naquela época era um local bem tranquilo, a 30 minutos de Santo Amaro. Atualmente é uma das regiões mais povoadas e perigosas da cidade.

Dividia meu quarto com minha irmã. A minha cama ficava de frente para a porta, que quando se abria, dava para o corredor da casa, que terminava na porta do quarto dos meus pais, constantemente trancada. Havia outro quarto no meio, que era do meu irmão, mas ele raramente dormia lá, pois sentia medo. Preferia ficar conosco ou ir para a cama dos pais. Minha irmã, de vez em quando, também ia para lá. Eu nunca fui.

Sempre gostei de ficar em minha cama. Com um ano e dois meses, eu já tinha uma irmã; então não desfrutei desse espaço de intimidade maior com meus pais. Aos três anos, ganhei um irmão, o sonhado filho homem de meu pai, o que aprofundou esse distanciamento. Sempre fui tratada como a filha mais velha, aquela que já “estava grande” para determinados mimos dispensados aos filhos mais novos.

Quando eu tinha 6 meses de idade, minha mãe ficou grávida. Por conta disso ela me desmamou da noite pro dia, algo que me deixou com uma forte marca de rejeição, que precisei trabalhar muito em minha vida adulta. Hoje em dia já tenho outro olhar para isso e compreendo a sobrecarga de minha mãe em nossa infância. Além de trabalhar fora e sofrer pressão de meu pai para largar o emprego, ela ainda cuidava da casa. De vez em quando tinha uma empregada, mas elas não ficavam muito tempo, devido aos reclames da dona da casa, sempre insatisfeita com os serviços prestados.

Voltando ao desmame precoce e súbito, passei a usar mamadeira. E não larguei mais, fui até os seis anos. Era quando eu acalmava minha carência afetiva. Depois de largar a mamadeira, obrigada por minha mãe, pois já estava com idade para lá de avançada para isso, nunca mais tomei leite. Até hoje não gosto, a não ser em um cappuccino ou em um chocolate quente, bebidos raramente. Acredito que o leite puro me remetia à mamadeira que eu gostava tanto.

Antes de mudarmos para a casa nova, vivíamos em um sobradinho no Ipiranga, perto dos meus avós. Nessa época, sentia um forte acolhimento deles e da minha tia Dinah, que brincavam com a gente, eram carinhosos e amáveis. Eles tinham tempo e disponibilidade para nos dar atenção e me sentia muito feliz na casa deles. Foi um período que durou desde o meu nascimento até os 5 anos de idade.

Quando fomos morar longe, a mudança foi grande e marcante. Entrei em um período de solidão. Meus irmãos eram muito amigos e se davam muito bem; eu brincava mais com minha irmã e tive uma relação tumultuada e fria com meu irmão, pela maior parte da vida, até que, com mais de 50 anos de idade, depois de uma constelação familiar, nos tornamos amigos.

Assim que mudamos, meus irmãos começaram a frequentar o jardim da Infância. Eu não tive essa etapa em minha vida, fui direto para o ensino primário aos 7 anos. Talvez por isso, desenvolvi o hábito de escrever, desenhar, recortar revistas e passava longos momentos distante da família, em meu quarto. Isso durou além da adolescência e minha mãe dizia que “eu parecia visita dentro de casa”.

Meus pais valorizavam muito a pequena família. A maioria das saídas de casa consistia em visitar os parentes. Meus inúmeros primos, três deles nascidos no mesmo ano que eu, eram os únicos amigos. Meus pais não tinham amigos que frequentassem nossa casa, eles se bastavam entre si e isso foi um aspecto que sempre me impressionou muito. Nunca brinquei ou dormi na casa de uma amiguinha. Acredito que, por terem tido uma infância muito difícil; ambos perderam a mãe enquanto eram ainda muito pequenos, resolveram criar um lar, um ninho, que acolhesse e desse o máximo de proteção aos filhos, algo nunca vivenciado por eles.

Hoje entendo que o distanciamento afetivo que eu senti por parte dos meus pais, foi o resultado do que conseguiram me dar, afinal, nunca receberam esse amor filial para transmitir aos filhos. O cuidado vinha com a casa, sempre limpa e organizada, a comida, muito gostosa e bem feita, os passeios de fim de semana, ao ar livre ou em Santos, quando ficávamos em uma pensão, a 200 metros da praia, às vezes com a companhia dos tios e primos.

Eu adorava essas viagens de final de semana, bem como os almoços e jantares em família. Eram momentos agradáveis; meu pai sempre trazia uma sobremesa para compartilhar, muitas vezes ele dividia um torrone com os filhos. Aos domingos, cozinhavam juntos e preparavam massas caseiras maravilhosas. Nos aniversários, minha mãe fazia bolos temáticos. Nunca esqueci do coelhinho branco, em forma de bolo, que minha mãe preparou no meu aniversário de seis anos.

Assim transmitiram o amor por nós e com essa base nos tornamos adultos. Filhos centrados, trabalhadores, com famílias e filhos. Mas nenhum ficou no primeiro casamento, todos são rodeados de amigos e abertos para o mundo.

14/05/2020
Alto Paraíso de Goiás

Memórias Brincadeiras, prazeres e imaginação





Fui uma criança do tipo mais sedentária, devido à questão dos meus pés serem voltados para dentro, o que foi enfatizado por meus pais, que se preocupavam muito com isso. Ao invés de estimularem a prática do exercício físico, me levaram justamente ao oposto. “A Lívia é mole”, diziam meus irmãos e primos. Acreditei nessa mentira por muito tempo, mas ao chegar na adolescência, houve uma mudança. A bota ortopédica fez efeito! Eu não concordo, mas para o meus pais sim, nem que tenha sido um efeito psicológico.

Eu gostava muito de pular amarelinha. Era uma brincadeira fácil e que não me constrangia, como jogar queimada, por exemplo. Na escola, eu fugia dos jogos com bolas e adorava quando a aula de educação física era para praticar exercícios. E isso trago até hoje; gosto muito da prática de ginástica, yôga e alongamento.

Outra atividade que me atraía era ficar em meu quarto, recortando gravuras de revistas. Adorava fazer colagens, separar paisagens bonitas e colar em uma cartolina. Ou mesmo colecionar essas gravuras; guardava tudo em uma caixa. Minha tia Dinah sempre me presenteava com revistas velhas, para eu recortar. Dizia que eu era parecia “uma ratazana”.

As brincadeiras com bonecas também eram minhas preferidas. Gostava de cuidar delas, dar mamadeira, trocar roupinhas. Era a atividade predileta de minha irmã e eu. Tínhamos uns bebês grandes, de plástico e cuidávamos deles até a exaustão. Lembro de um dia, em que nos sentimos verdadeiramente cansadas daqueles cuidados realistas e os abandonamos, por um tempo. Tínhamos também dois ursos de pelúcia, o meu amarelo e o dela marrom, nossos outros filhos. Nunca me esqueço do dia que meu pai foi me buscar na escola, carregando aquele urso. Eu completei oito anos naquele dia. Fiquei muito feliz com o presente.

A escrita sempre me fascinou. Escrevia poesia, cartas para o meus amigos correspondentes, inventava estórias. Gostava de ler para minha mãe que duvidava da minha habilidade literária. “Foi você que escreveu isso, Lívia?” costumava comentar. Mas isso nunca me intimidou, recebia como um elogio e até como incentivo. 

Uma época morávamos em um sítio, onde tinha um laguinho, muito bonito. Eu ia para lá com meu caderno, para escrever poesias. Lembro de um verso assim “à beira do lago escrevo canção e poesia, à beira do lago é a minha alegria...” Era um momento íntimo, onde eu imaginava minha vida, fantasiava, ficava sozinha. Sempre gostei desse espaço de solitude.

Nesse sítio também tinha uma mesa de pingue pongue; fazíamos competições com os primos; lembro que eu era boa nisso, pois jogava muito bem. Sempre fui competitiva, pelo fato de ser a filha mais velha, acredito. Uma forma de chamar atenção. Tive uma relação difícil com meu irmão, pois ambos competíamos muito. O fato de meu pai esperar por um filho homem, na época de meu nascimento, trouxe um sentimento de rejeição que eu compensava mostrando a ele que eu poderia ser tão boa quanto um homem! Só tomei consciência desse fato mais tarde, em uma constelação familiar, que me possibilitou a melhora do relacionamento com o meu irmão, já na maturidade.

Depois que o meu pai vendeu o sítio e comprou uma casa de praia, em Caraguatatuba, jogávamos baralho, nos dias de chuva. Aprendi cedo a jogar buraco; jogava com meus irmãos e primos, durante as tardes e participava também das seções noturnas, com meus pais. Meus pais gostavam de jogar um com o outro, mas às vezes abriam a cartada para os filhos e sobrinhos. Eu gostava de contar os pontos da partida, anotar em um papel e dar o resultado. Reflexo da minha competitividade, mais uma vez.

A música sempre me atraiu. Com aquele medo de que eu me tornasse uma artista, minha mãe nunca me deixou aprender a dançar ou tocar um instrumento. Eu queria aprender sanfona. Hoje eu acho que eles não tinham poder aquisitivo para bancar outra atividade extra curricular, pois o colégio onde estudávamos, já era bem pesado para eles, financeiramente. Mas ela enfatizava constantemente esse temor; para eles, ser cantora, dançarina ou atriz eram sinônimos de prostituta.

Meu pai apreciava ouvir a Inesita Barroso e a Ângela Maria, na vitrola lá de casa. Eu ouvia com ele e acompanhava, dançando e cantando. Os rádios de pilha, bem pequenos, eram a novidade do momento e meu pai me deu um, o que me deixou muito feliz e permitiu que eu ouvisse os cantores populares da época.  Ele se orgulhava de mim, por gostar de música.

Minha mãe era fã dos livros espíritas e investiu em várias coleções de livros infanto juvenis para nós; lia estórias e nos incentivava a ler, aspecto que agradeço muito, pois adquirimos esse maravilhoso hábito. Ler também foi um momento prazeroso de minha vida familiar na infância.

22 de junho de 2020.