Ninho:
O aconchego da primeira infância
Lembro que, a partir dos seis
anos de idade, mudamos para a casa nova que meu pai construiu. Ficava na
periferia de São Paulo, Vila das Belezas. Naquela época era um local bem
tranquilo, a 30 minutos de Santo Amaro. Atualmente é uma das regiões mais
povoadas e perigosas da cidade.
Dividia meu quarto com minha
irmã. A minha cama ficava de frente para a porta, que quando se abria, dava
para o corredor da casa, que terminava na porta do quarto dos meus pais,
constantemente trancada. Havia outro quarto no meio, que era do meu irmão, mas ele
raramente dormia lá, pois sentia medo. Preferia ficar conosco ou ir para a cama
dos pais. Minha irmã, de vez em quando, também ia para lá. Eu nunca fui.
Sempre gostei de ficar em
minha cama. Com um ano e dois meses, eu já tinha uma irmã; então não desfrutei
desse espaço de intimidade maior com meus pais. Aos três anos, ganhei um irmão,
o sonhado filho homem de meu pai, o que aprofundou esse distanciamento. Sempre
fui tratada como a filha mais velha, aquela que já “estava grande” para
determinados mimos dispensados aos filhos mais novos.
Quando eu tinha 6 meses de
idade, minha mãe ficou grávida. Por conta disso ela me desmamou da noite pro
dia, algo que me deixou com uma forte marca de rejeição, que precisei trabalhar
muito em minha vida adulta. Hoje em dia já tenho outro olhar para isso e
compreendo a sobrecarga de minha mãe em nossa infância. Além de trabalhar fora
e sofrer pressão de meu pai para largar o emprego, ela ainda cuidava da casa.
De vez em quando tinha uma empregada, mas elas não ficavam muito tempo, devido
aos reclames da dona da casa, sempre insatisfeita com os serviços prestados.
Voltando ao desmame precoce e
súbito, passei a usar mamadeira. E não larguei mais, fui até os seis anos. Era
quando eu acalmava minha carência afetiva. Depois de largar a mamadeira,
obrigada por minha mãe, pois já estava com idade para lá de avançada para isso,
nunca mais tomei leite. Até hoje não gosto, a não ser em um cappuccino ou em um
chocolate quente, bebidos raramente. Acredito que o leite puro me remetia à
mamadeira que eu gostava tanto.
Antes de mudarmos para a casa
nova, vivíamos em um sobradinho no Ipiranga, perto dos meus avós. Nessa época,
sentia um forte acolhimento deles e da minha tia Dinah, que brincavam com a
gente, eram carinhosos e amáveis. Eles tinham tempo e disponibilidade para nos
dar atenção e me sentia muito feliz na casa deles. Foi um período que durou
desde o meu nascimento até os 5 anos de idade.
Quando fomos morar longe, a
mudança foi grande e marcante. Entrei em um período de solidão. Meus irmãos
eram muito amigos e se davam muito bem; eu brincava mais com minha irmã e tive
uma relação tumultuada e fria com meu irmão, pela maior parte da vida, até que,
com mais de 50 anos de idade, depois de uma constelação familiar, nos tornamos
amigos.
Assim que mudamos, meus irmãos
começaram a frequentar o jardim da Infância. Eu não tive essa etapa em minha
vida, fui direto para o ensino primário aos 7 anos. Talvez por isso, desenvolvi
o hábito de escrever, desenhar, recortar revistas e passava longos momentos
distante da família, em meu quarto. Isso durou além da adolescência e minha mãe
dizia que “eu parecia visita dentro de casa”.
Meus pais valorizavam muito a
pequena família. A maioria das saídas de casa consistia em visitar os parentes.
Meus inúmeros primos, três deles nascidos no mesmo ano que eu, eram os únicos
amigos. Meus pais não tinham amigos que frequentassem nossa casa, eles se
bastavam entre si e isso foi um aspecto que sempre me impressionou muito. Nunca
brinquei ou dormi na casa de uma amiguinha. Acredito que, por terem tido uma
infância muito difícil; ambos perderam a mãe enquanto eram ainda muito
pequenos, resolveram criar um lar, um ninho, que acolhesse e desse o máximo de
proteção aos filhos, algo nunca vivenciado por eles.
Hoje entendo que o
distanciamento afetivo que eu senti por parte dos meus pais, foi o resultado do
que conseguiram me dar, afinal, nunca receberam esse amor filial para transmitir
aos filhos. O cuidado vinha com a casa, sempre limpa e organizada, a comida,
muito gostosa e bem feita, os passeios de fim de semana, ao ar livre ou em
Santos, quando ficávamos em uma pensão, a 200 metros da praia, às vezes com a
companhia dos tios e primos.
Eu adorava essas viagens de
final de semana, bem como os almoços e jantares em família. Eram momentos
agradáveis; meu pai sempre trazia uma sobremesa para compartilhar, muitas vezes
ele dividia um torrone com os filhos. Aos domingos, cozinhavam juntos e
preparavam massas caseiras maravilhosas. Nos aniversários, minha mãe fazia
bolos temáticos. Nunca esqueci do coelhinho branco, em forma de bolo, que minha
mãe preparou no meu aniversário de seis anos.
Assim transmitiram o amor por
nós e com essa base nos tornamos adultos. Filhos centrados, trabalhadores, com
famílias e filhos. Mas nenhum ficou no primeiro casamento, todos são rodeados
de amigos e abertos para o mundo.
14/05/2020
Alto Paraíso de Goiás
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