quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias Ninho, o aconchego da primeira infância




Ninho: O aconchego da primeira infância


Lembro que, a partir dos seis anos de idade, mudamos para a casa nova que meu pai construiu. Ficava na periferia de São Paulo, Vila das Belezas. Naquela época era um local bem tranquilo, a 30 minutos de Santo Amaro. Atualmente é uma das regiões mais povoadas e perigosas da cidade.

Dividia meu quarto com minha irmã. A minha cama ficava de frente para a porta, que quando se abria, dava para o corredor da casa, que terminava na porta do quarto dos meus pais, constantemente trancada. Havia outro quarto no meio, que era do meu irmão, mas ele raramente dormia lá, pois sentia medo. Preferia ficar conosco ou ir para a cama dos pais. Minha irmã, de vez em quando, também ia para lá. Eu nunca fui.

Sempre gostei de ficar em minha cama. Com um ano e dois meses, eu já tinha uma irmã; então não desfrutei desse espaço de intimidade maior com meus pais. Aos três anos, ganhei um irmão, o sonhado filho homem de meu pai, o que aprofundou esse distanciamento. Sempre fui tratada como a filha mais velha, aquela que já “estava grande” para determinados mimos dispensados aos filhos mais novos.

Quando eu tinha 6 meses de idade, minha mãe ficou grávida. Por conta disso ela me desmamou da noite pro dia, algo que me deixou com uma forte marca de rejeição, que precisei trabalhar muito em minha vida adulta. Hoje em dia já tenho outro olhar para isso e compreendo a sobrecarga de minha mãe em nossa infância. Além de trabalhar fora e sofrer pressão de meu pai para largar o emprego, ela ainda cuidava da casa. De vez em quando tinha uma empregada, mas elas não ficavam muito tempo, devido aos reclames da dona da casa, sempre insatisfeita com os serviços prestados.

Voltando ao desmame precoce e súbito, passei a usar mamadeira. E não larguei mais, fui até os seis anos. Era quando eu acalmava minha carência afetiva. Depois de largar a mamadeira, obrigada por minha mãe, pois já estava com idade para lá de avançada para isso, nunca mais tomei leite. Até hoje não gosto, a não ser em um cappuccino ou em um chocolate quente, bebidos raramente. Acredito que o leite puro me remetia à mamadeira que eu gostava tanto.

Antes de mudarmos para a casa nova, vivíamos em um sobradinho no Ipiranga, perto dos meus avós. Nessa época, sentia um forte acolhimento deles e da minha tia Dinah, que brincavam com a gente, eram carinhosos e amáveis. Eles tinham tempo e disponibilidade para nos dar atenção e me sentia muito feliz na casa deles. Foi um período que durou desde o meu nascimento até os 5 anos de idade.

Quando fomos morar longe, a mudança foi grande e marcante. Entrei em um período de solidão. Meus irmãos eram muito amigos e se davam muito bem; eu brincava mais com minha irmã e tive uma relação tumultuada e fria com meu irmão, pela maior parte da vida, até que, com mais de 50 anos de idade, depois de uma constelação familiar, nos tornamos amigos.

Assim que mudamos, meus irmãos começaram a frequentar o jardim da Infância. Eu não tive essa etapa em minha vida, fui direto para o ensino primário aos 7 anos. Talvez por isso, desenvolvi o hábito de escrever, desenhar, recortar revistas e passava longos momentos distante da família, em meu quarto. Isso durou além da adolescência e minha mãe dizia que “eu parecia visita dentro de casa”.

Meus pais valorizavam muito a pequena família. A maioria das saídas de casa consistia em visitar os parentes. Meus inúmeros primos, três deles nascidos no mesmo ano que eu, eram os únicos amigos. Meus pais não tinham amigos que frequentassem nossa casa, eles se bastavam entre si e isso foi um aspecto que sempre me impressionou muito. Nunca brinquei ou dormi na casa de uma amiguinha. Acredito que, por terem tido uma infância muito difícil; ambos perderam a mãe enquanto eram ainda muito pequenos, resolveram criar um lar, um ninho, que acolhesse e desse o máximo de proteção aos filhos, algo nunca vivenciado por eles.

Hoje entendo que o distanciamento afetivo que eu senti por parte dos meus pais, foi o resultado do que conseguiram me dar, afinal, nunca receberam esse amor filial para transmitir aos filhos. O cuidado vinha com a casa, sempre limpa e organizada, a comida, muito gostosa e bem feita, os passeios de fim de semana, ao ar livre ou em Santos, quando ficávamos em uma pensão, a 200 metros da praia, às vezes com a companhia dos tios e primos.

Eu adorava essas viagens de final de semana, bem como os almoços e jantares em família. Eram momentos agradáveis; meu pai sempre trazia uma sobremesa para compartilhar, muitas vezes ele dividia um torrone com os filhos. Aos domingos, cozinhavam juntos e preparavam massas caseiras maravilhosas. Nos aniversários, minha mãe fazia bolos temáticos. Nunca esqueci do coelhinho branco, em forma de bolo, que minha mãe preparou no meu aniversário de seis anos.

Assim transmitiram o amor por nós e com essa base nos tornamos adultos. Filhos centrados, trabalhadores, com famílias e filhos. Mas nenhum ficou no primeiro casamento, todos são rodeados de amigos e abertos para o mundo.

14/05/2020
Alto Paraíso de Goiás

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