O Dia do Meu Nascimento
Nasci em São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Fui a primeira
filha de minha mãe, ela estava com 29 anos e comentava comigo que, na época, já
era considerada uma mulher “velha” para casar, mas que mesmo assim “deu tempo”
dela ter seus filhos, três, um atrás do outro. E se arrependeu de não ter tido
um quarto, que, segundo ela, poderia ter feito companhia para o meu irmão mais
novo, o único do sexo masculino.
Foi um parto normal, demorado, o que é comum para as mulheres
marinheiras de primeira viagem. Mas sempre minha mãe enfatizava esse fato
quando conversava comigo sobre meu nascimento. Nunca demonstrou qualquer
alegria pela minha vinda; nem ela, nem meu pai, que queria um filho homem. Era
um fato corriqueiro, absolutamente esperado, para as mulheres daquela época,
após o casamento. Mas nasci uma bebezinha linda e séria, e aos poucos, fui
ganhando o amor e cuidado dos dois, que faziam de tudo para eu dar uma
risadinha.
Quando imagino esse dia na vida da minha mãe, vem muita coisa
em minha imaginação. Podem ser lembranças do inconsciente ou apenas fantasias
que criei ao longo do tempo. Eu precisei trabalhar em minha vida adulta, um
profundo sentimento de medo e rejeição, que acredito ter se originado ainda
quando eu estava no ventre de minha mãe. Minha avó materna morreu em um trabalho
de parto quando ela tinha apenas três anos. Além de uma infância muito difícil,
esse fato deve ter deixado marcas profundas em seu inconsciente, que podem ter
vindo à tona em sua primeira gravidez e eu senti tudo. Essa é a única explicação
que encontrei depois de muita terapia. Cheguei a conversar com minha mãe sobre
isso, quando eu já era adulta, mas ela nunca aceitou essa ideia, naturalmente.
Hoje fui pesquisar mais sobre o dia em que nasci e descobri,
para a minha surpresa, que esse é o
Dia Nacional da Televisão, no Brasil, pois em 18 de setembro de 1950 foi inaugurada a TV Tupi em São Paulo, o primeiro
canal de televisão no
país. Outro fato
interessante é que menos de vinte dias depois do meu nascimento, Getúlio Vargas
foi eleito presidente do Brasil, no dia 3 de outubro de 1950.
Tenho uma memória de menina, que ficou marcada, em relação à
televisão. Meu pai achava que era coisa do diabo. Uma vez, estávamos na casa do
meu avô e a televisão estava ligada; eu devia ter uns cinco, seis anos.
Estávamos todos fixados na tela, eu e meus irmãos, inocentemente, olhando o que
se passava e de repente, houve uma cena de violência; dois homens brigavam, um
deles puxou uma faca. Meu pai ficou muito bravo e alterado por termos visto
aquilo e mandou a gente ir imediatamente pro carro, sem quase nem dizer até
logo pro meu avô. A cena do meu pai foi
mais chocante que a da TV em si; a
verdade é que nunca me esqueci de nenhuma das duas. Isso, de certa forma, está relacionado com o
dia do meu nascimento, quando trouxeram essa obra do demônio para o Brasil.
Com relação ao presidente Getúlio Vargas, só lembro que ele
cometeu suicídio, quando eu tinha 4 anos de idade. Foi um fato que também nunca
me esqueci, pelas reações e comentários que tiveram em minha casa, que devem
ter tocado meu coração infantil.
Mas isso não
faz parte do dia do meu nascimento; é que memória é assim, uma coisa leva à
outra...
03/05/2020
Alto Paraíso de Goiás
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