quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias O dia do meu nascimento




O Dia do Meu Nascimento

Nasci em São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Fui a primeira filha de minha mãe, ela estava com 29 anos e comentava comigo que, na época, já era considerada uma mulher “velha” para casar, mas que mesmo assim “deu tempo” dela ter seus filhos, três, um atrás do outro. E se arrependeu de não ter tido um quarto, que, segundo ela, poderia ter feito companhia para o meu irmão mais novo, o único do sexo masculino.

Foi um parto normal, demorado, o que é comum para as mulheres marinheiras de primeira viagem. Mas sempre minha mãe enfatizava esse fato quando conversava comigo sobre meu nascimento. Nunca demonstrou qualquer alegria pela minha vinda; nem ela, nem meu pai, que queria um filho homem. Era um fato corriqueiro, absolutamente esperado, para as mulheres daquela época, após o casamento. Mas nasci uma bebezinha linda e séria, e aos poucos, fui ganhando o amor e cuidado dos dois, que faziam de tudo para eu dar uma risadinha.

Quando imagino esse dia na vida da minha mãe, vem muita coisa em minha imaginação. Podem ser lembranças do inconsciente ou apenas fantasias que criei ao longo do tempo. Eu precisei trabalhar em minha vida adulta, um profundo sentimento de medo e rejeição, que acredito ter se originado ainda quando eu estava no ventre de minha mãe. Minha avó materna morreu em um trabalho de parto quando ela tinha apenas três anos. Além de uma infância muito difícil, esse fato deve ter deixado marcas profundas em seu inconsciente, que podem ter vindo à tona em sua primeira gravidez e eu senti tudo. Essa é a única explicação que encontrei depois de muita terapia. Cheguei a conversar com minha mãe sobre isso, quando eu já era adulta, mas ela nunca aceitou essa ideia, naturalmente.

Hoje fui pesquisar mais sobre o dia em que nasci e descobri, para a minha surpresa, que esse é o Dia Nacional da Televisão, no Brasil, pois em 18 de setembro de 1950 foi inaugurada a TV Tupi em São Paulo, o primeiro canal de televisão no país. Outro fato interessante é que menos de vinte dias depois do meu nascimento, Getúlio Vargas foi eleito presidente do Brasil, no dia 3 de outubro de 1950.

Tenho uma memória de menina, que ficou marcada, em relação à televisão. Meu pai achava que era coisa do diabo. Uma vez, estávamos na casa do meu avô e a televisão estava ligada; eu devia ter uns cinco, seis anos. Estávamos todos fixados na tela, eu e meus irmãos, inocentemente, olhando o que se passava e de repente, houve uma cena de violência; dois homens brigavam, um deles puxou uma faca. Meu pai ficou muito bravo e alterado por termos visto aquilo e mandou a gente ir imediatamente pro carro, sem quase nem dizer até logo pro meu avô.  A cena do meu pai foi mais chocante que a  da TV em si; a verdade é que nunca me esqueci de nenhuma das duas.  Isso, de certa forma, está relacionado com o dia do meu nascimento, quando trouxeram essa obra do demônio para o Brasil.

Com relação ao presidente Getúlio Vargas, só lembro que ele cometeu suicídio, quando eu tinha 4 anos de idade. Foi um fato que também nunca me esqueci, pelas reações e comentários que tiveram em minha casa, que devem ter tocado meu coração infantil.
Mas isso não faz parte do dia do meu nascimento; é que memória é assim, uma coisa leva à outra...

03/05/2020
Alto Paraíso de Goiás


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