Nasci em uma maternidade pública da Vila Mariana, São Paulo,
em 1950. Sou a primeira filha de minha mãe e ela sempre disse que meu parto foi
“duro”. Posso imaginar, pois minha avó materna não resistiu ao dar à luz a seu
terceiro filho, tendo deixado minha mãe, com apenas três anos de idade, órfã.
Meus pais foram pessoas muito simples, que se encontraram na
prefeitura de SP, onde trabalhavam em cargos administrativos de baixo escalão.
Meu pai começou aos catorze anos como um tipo de office boy, na época. Minha
mãe fez um concurso simples, onde teve que cantar o hino nacional e aos 27 anos
iniciou sua jornada de trabalho para toda a vida, algo não muito comum para as
mulheres naquele tempo. Foram três filhos seguidos, eu, a primeira mulher, que
frustrou as expectativas de meu pai, que queria um menino; minha irmã, a
segunda, que foi pelo mesmo caminho e, por último, o desejado homem, meu irmão
mais novo.
Tive uma infância com uma família sólida e estruturada, por
um lado e por outro, com muitas atribulações. Meu pai era um sonhador,
ambicioso e extremamente insatisfeito. Rapidamente as coisas deixavam de ter
graça, aí ele buscava novos desafios para ganhar mais e poder deixar de ser um
mero funcionário público. A maioria de suas iniciativas foram um fracasso, que
nos deixavam sem dinheiro, ou obrigavam minha mãe a se ausentar do trabalho,
algo que ela detestava. Quando estava bem financeiramente, saíamos para acampar
e fizemos muitas viagens pelo Brasil. Foram muito amorosos, com os filhos e
como casal e ficaram juntos por quarenta e nove anos e meio, quando ele fez a
passagem.
A partir da adolescência, a vida se tornou bem mais difícil
para mim, que era uma garota aberta, com muitos amigos, porém severamente
cerceada em meus desejos, pelos meus pais. Não me lembro de ter dormido uma
noite sequer na casa de uma amiga. Os horários eram rígidos. Se quisesse ir a
uma festa, só com a companhia de minha irmã, que era completamente diferente de
mim e não gostava de sair. Namorar, só escondido. Minha mãe não me ensinou
sobre sexualidade, ela nunca recebeu nada nesse sentido. A única exceção foi
falar sobre menstruação, pois achava um absurdo as mulheres menstruarem sem
saberem o que estava acontecendo. O que mais me marcou foi o distanciamento do
meu pai, quando me tornei mocinha. Acho que a mulher que estava despertando em
mim o assustava.
Acredito que, por conta disso, casei cedo. Tudo que queria
era sair de casa e aos dezenove anos, encontrei meu primeiro homem. Casei aos
21, quando ainda cursava a universidade. Foi uma época muito boa, de amor,
cultura e liberdade individual. O momento era de forte repressão política; meu
marido buscava por uma bolsa de doutorado no exterior e no auge da ditadura, conseguimos
sair do Brasil e morar em Oxford, Inglaterra, onde vivemos por quase quatro
anos. Lá tive meu primeiro filho. Costumo brincar que enquanto meu companheiro
fazia seu PHD em astrofísica, eu fazia o meu em “housewife”.
Quando voltamos ao Brasil fomos morar em Natal, Rio Grande do
Norte, onde viviam meus sogros. A Universidade Federal do RN requisitava
pessoas de várias partes do país para compor seu corpo docente. Depois de anos
de frio cinza e tradições inglesas, nada melhor que chegar em uma cidade
ensolarada, à beira mar, com muita gente animada, sensualidade à flor da pele,
festas, saraus, trocas intensas em todos os níveis. Meu casamento não resistiu
e passei a viver a minha segunda adolescência, agora com toda liberdade que eu
queria. Foram anos intensos. Me tornei professora, entrei para um grupo de
teatro, passei a dividir um apartamento com uma amiga e o filho dela, amigo do
meu filho.
Quatro anos depois conheci meu segundo marido, também
potiguar, que estava de volta à cidade natal, depois de ter morado desde
criança no Rio de Janeiro. Foi um grande encontro que modificou minha vida. Em
três meses de namoro, optamos por viver juntos, primeiro em Recife, onde fui
fazer o mestrado e depois em Brasília, onde fixamos residência e formamos nossa
família. Conhecemos a Chapada dos Veadeiros que passou a ser o nosso local de
lazer predileto, até que optamos por morar em Alto Paraíso, onde criamos nossos
quatro filhos, por oito anos. O mais velho, quase adulto, permaneceu em
Brasília.
São inúmeros fatos e causos dessa época, mas para resumir, o
casamento acabou e voltei para Brasília, onde retomei minha vida acadêmica,
acabei de criar os filhos e vivi por mais vinte anos. Sim, mas não foi assim
tão simples quanto parece. Foi uma fase de grandes turbulências que culminaram
com minha volta à capital. Sonhos desfeitos, corações partidos. Paixão
avassaladora, fundo do poço. Abandono, tristeza, rejeição e culpa, que ainda
reverbera nos dias atuais. Esse é o resumo dessa época.
Saí da casa onde pensei que viveria até meu último dia.
Voltei ao trabalho que julgava que nunca mais iria fazer. E fui morar, de novo,
em um apartamento na Asa Norte, com os meus cinco filhos (sim, até o mais velho
se juntou a nós), gato e cachorro. Mas o saldo foi positivo. Lambi as feridas e
reconstruí minha vida. Fiz doutorado, voltei para a universidade, a mesma onde
todos os meus filhos entraram e se formaram, fato que me traz alegria e
orgulho.
Nunca mais vivi um amor, um namoro mais longo, muito menos um
casamento. Me tornei avó de repente, sem nenhum planejamento. Minha única filha
mulher engravidou, aos 19 anos, de seu namorado de 18. Desde então convivo com
minha linda Isadora, agora com 7 anos. Elas moram comigo, aqui em Alto Paraíso,
onde decidi passar um tempo, depois que me aposentei. Não sei até quando irei
continuar aqui; me parece que essa volta foi para passar minha vida a limpo e
ressignificar o que aconteceu naquela época. Tenho vivido um dia de cada vez.
Muitas vezes sonho em partir, para um novo tempo, cheio de amor e aventuras.
30 de Abril
de 2020
Alto Paraíso de Goiás
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