quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias Os fatos que marcaram minha vida






Nasci em uma maternidade pública da Vila Mariana, São Paulo, em 1950. Sou a primeira filha de minha mãe e ela sempre disse que meu parto foi “duro”. Posso imaginar, pois minha avó materna não resistiu ao dar à luz a seu terceiro filho, tendo deixado minha mãe, com apenas três anos de idade, órfã.

Meus pais foram pessoas muito simples, que se encontraram na prefeitura de SP, onde trabalhavam em cargos administrativos de baixo escalão. Meu pai começou aos catorze anos como um tipo de office boy, na época. Minha mãe fez um concurso simples, onde teve que cantar o hino nacional e aos 27 anos iniciou sua jornada de trabalho para toda a vida, algo não muito comum para as mulheres naquele tempo. Foram três filhos seguidos, eu, a primeira mulher, que frustrou as expectativas de meu pai, que queria um menino; minha irmã, a segunda, que foi pelo mesmo caminho e, por último, o desejado homem, meu irmão mais novo.

Tive uma infância com uma família sólida e estruturada, por um lado e por outro, com muitas atribulações. Meu pai era um sonhador, ambicioso e extremamente insatisfeito. Rapidamente as coisas deixavam de ter graça, aí ele buscava novos desafios para ganhar mais e poder deixar de ser um mero funcionário público. A maioria de suas iniciativas foram um fracasso, que nos deixavam sem dinheiro, ou obrigavam minha mãe a se ausentar do trabalho, algo que ela detestava. Quando estava bem financeiramente, saíamos para acampar e fizemos muitas viagens pelo Brasil. Foram muito amorosos, com os filhos e como casal e ficaram juntos por quarenta e nove anos e meio, quando ele fez a passagem.

A partir da adolescência, a vida se tornou bem mais difícil para mim, que era uma garota aberta, com muitos amigos, porém severamente cerceada em meus desejos, pelos meus pais. Não me lembro de ter dormido uma noite sequer na casa de uma amiga. Os horários eram rígidos. Se quisesse ir a uma festa, só com a companhia de minha irmã, que era completamente diferente de mim e não gostava de sair. Namorar, só escondido. Minha mãe não me ensinou sobre sexualidade, ela nunca recebeu nada nesse sentido. A única exceção foi falar sobre menstruação, pois achava um absurdo as mulheres menstruarem sem saberem o que estava acontecendo. O que mais me marcou foi o distanciamento do meu pai, quando me tornei mocinha. Acho que a mulher que estava despertando em mim o assustava.
Acredito que, por conta disso, casei cedo. Tudo que queria era sair de casa e aos dezenove anos, encontrei meu primeiro homem. Casei aos 21, quando ainda cursava a universidade. Foi uma época muito boa, de amor, cultura e liberdade individual. O momento era de forte repressão política; meu marido buscava por uma bolsa de doutorado no exterior e no auge da ditadura, conseguimos sair do Brasil e morar em Oxford, Inglaterra, onde vivemos por quase quatro anos. Lá tive meu primeiro filho. Costumo brincar que enquanto meu companheiro fazia seu PHD em astrofísica, eu fazia o meu em “housewife”.

Quando voltamos ao Brasil fomos morar em Natal, Rio Grande do Norte, onde viviam meus sogros. A Universidade Federal do RN requisitava pessoas de várias partes do país para compor seu corpo docente. Depois de anos de frio cinza e tradições inglesas, nada melhor que chegar em uma cidade ensolarada, à beira mar, com muita gente animada, sensualidade à flor da pele, festas, saraus, trocas intensas em todos os níveis. Meu casamento não resistiu e passei a viver a minha segunda adolescência, agora com toda liberdade que eu queria. Foram anos intensos. Me tornei professora, entrei para um grupo de teatro, passei a dividir um apartamento com uma amiga e o filho dela, amigo do meu filho.

Quatro anos depois conheci meu segundo marido, também potiguar, que estava de volta à cidade natal, depois de ter morado desde criança no Rio de Janeiro. Foi um grande encontro que modificou minha vida. Em três meses de namoro, optamos por viver juntos, primeiro em Recife, onde fui fazer o mestrado e depois em Brasília, onde fixamos residência e formamos nossa família. Conhecemos a Chapada dos Veadeiros que passou a ser o nosso local de lazer predileto, até que optamos por morar em Alto Paraíso, onde criamos nossos quatro filhos, por oito anos. O mais velho, quase adulto, permaneceu em Brasília.

São inúmeros fatos e causos dessa época, mas para resumir, o casamento acabou e voltei para Brasília, onde retomei minha vida acadêmica, acabei de criar os filhos e vivi por mais vinte anos. Sim, mas não foi assim tão simples quanto parece. Foi uma fase de grandes turbulências que culminaram com minha volta à capital. Sonhos desfeitos, corações partidos. Paixão avassaladora, fundo do poço. Abandono, tristeza, rejeição e culpa, que ainda reverbera nos dias atuais. Esse é o resumo dessa época.

Saí da casa onde pensei que viveria até meu último dia. Voltei ao trabalho que julgava que nunca mais iria fazer. E fui morar, de novo, em um apartamento na Asa Norte, com os meus cinco filhos (sim, até o mais velho se juntou a nós), gato e cachorro. Mas o saldo foi positivo. Lambi as feridas e reconstruí minha vida. Fiz doutorado, voltei para a universidade, a mesma onde todos os meus filhos entraram e se formaram, fato que me traz alegria e orgulho.

Nunca mais vivi um amor, um namoro mais longo, muito menos um casamento. Me tornei avó de repente, sem nenhum planejamento. Minha única filha mulher engravidou, aos 19 anos, de seu namorado de 18. Desde então convivo com minha linda Isadora, agora com 7 anos. Elas moram comigo, aqui em Alto Paraíso, onde decidi passar um tempo, depois que me aposentei. Não sei até quando irei continuar aqui; me parece que essa volta foi para passar minha vida a limpo e ressignificar o que aconteceu naquela época. Tenho vivido um dia de cada vez. Muitas vezes sonho em partir, para um novo tempo, cheio de amor e aventuras.

30 de Abril de 2020
Alto Paraíso de Goiás

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