Fui uma criança privilegiada, pois tive três avôs. O pai
biológico de minha mãe, o vô Augusto. O pai biológico do meu pai, o vô
Eliziário. E o vô Malta, marido da mãe de criação de minha mãe, que a adotou
quando ela tinha uns oito ou nove anos de idade. A vó Hercília, avó torta, mas
a única que realmente desempenhou esse papel na minha infância e na de meus
irmãos.
O vô Malta era um homem culto, jornalista, ficou viúvo cedo
com três filhas pequenas. Conheceu a vó Hercília, não sei onde nem como, mas
acabaram se casando e formaram uma grande família, com quatro filhas mulheres.
Era na casa do vô Malta que passávamos os domingos e
recebíamos mimos dos dois, desde que nasci. Uma casa acolhedora no bairro do
Ipiranga, em uma rua tranquila, residencial. Me lembro que passeávamos no meio
da rua, apesar das calçadas em ambos os lados. Era tão tranquilo; para que
ficar no limite das calçadas se podíamos usufruir do espaço aberto de uma rua
inteira?
E mais uma vez saímos para passear com meu avô, uma tarde
qualquer; acredito que eu deveria ter uns quatro anos de idade. Estávamos eu,
minha irmã e ele. Meu irmão mais novo era ainda um bebê nessa época.
Nesse dia, antes do passeio, eu estava brincando com a
maquiagem de minha tia Dinah, filha mais nova do vô Malta. Dessa cena eu não me
lembro exatamente. Mas lembro que a tia Dinah fazia muitas brincadeiras comigo
e com minha irmã e provavelmente me ensinou a usar um batom, imagino, além do
esmalte para as unhas. Eu fui passear me sentindo toda faceira, contente com o
meu visual, inocente e feliz.
Saímos de casa e começamos nossa caminhada. O meu avô,
distraído, pensando em alguma coisa, olhando para a rua e segurando as netas,
uma em cada mão, nem percebeu, naquele momento, que eu estava pintada. Até que,
no meio do caminho, me olhou no rosto, parou de andar e com o olhar severo,
soltou nossas mãos. Não gostou do que viu. Ficou indignado, afinal uma menina tão pequena,
de batom e com unhas pintadas? Com
rispidez mandou eu ir imediatamente para casa tirar tudo, o batom, o esmalte, ou
não iria continuar o passeio.
Essa cena foi impactante para mim, acredito que tenha sido a
primeira repressão masculina em meu feminino. Eu estava contente, passeando, me
sentindo linda e, de repente, recebo uma cortada violenta de alguém que eu
amava muito. A ponto de eu nunca mais me esquecer desse fato, quando eu tinha
apenas quatro anos de idade.
O que aconteceu depois eu não me lembro. Devo ter ido
correndo pela rua deserta, chegado em casa e pedido ajuda da minha tia. E
voltado a encontrar com ele e minha irmã, no mesmo local, agora com a cara
limpa e as unhas incolores.
Obedeci, como faziam sua mulher e filhas. Nunca iria
dispensar um passeio com o meu querido Vô Malta. Muito menos desagradá-lo.
A memória mais antiga
contada por minha mãe
Uma garotinha de menos de três anos no berço. Acordou cedo e
estava lá, sozinha, brincando distraída, fazendo suas necessidades fisiológicas
matinais. A fralda estava cheia e vazou. O cocô saiu e ela, em plena fase anal,
se interessou pelo que viu. Resolveu pegar, sentir o cheiro e a textura. Ainda
não satisfeita, experimentou fazer uma arte e espalhar seu material de trabalho
por toda a extensão de seu corpo, dos lençóis e do berço.
O silêncio da menina era preocupante, mas não durou muito. Logo
sua mãe sentiu um cheiro bem desagradável no ar e foi ver o que estava
acontecendo. Ao chegar lá, não teve dúvidas nem receio de também ficar
lambuzada. Pegou a menininha e encheu de boas palmadas, pra aprender a não
fazer lambança.
Minha mãe contou essa estória algumas vezes, o que me fazia
sentir um certo desconforto. Ela, por sua vez, passava a sensação que tinha
agido muito bem, ao me ensinar a lição e ter me dado “uma sova”, termo que
gostava de usar para ameaçar os filhos quando faziam bagunça ou brigavam entre
si. Sentia um tipo de orgulho, por sua ação tão primitiva e instintiva, sem a
mínima noção do que significava fase anal.
Até hoje, mais de meio século depois, ainda sinto algum tipo
de ressentimento, tristeza até, quando lembro desse fato. Pra que apanhar por ser curiosa, para que
bater em
criança com pouco mais de dois anos?
Coisas de minha mãe; esse foi apenas um primeiro episódio dentre
muitos. Ela tinha um modo automático de lidar com as coisas. Sujou, limpou,
guardou, assim, sem nem respirar, para dar conta das inúmeras tarefas do dia. E
eu era mais uma tarefa que precisava dar conta e, naquela manhã, deve ter se
sentido sobrecarregada. Descarregou sua raiva. Sujeira, cheiro de cocô, lençóis
sujos, berço pra limpar, culpa. E ainda uma outra menininha esperava para ser
amamentada.
11/05/2020
Alto Paraíso de Goiás
Nenhum comentário:
Postar um comentário