quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias Minha memória mais antiga da infância




Fui uma criança privilegiada, pois tive três avôs. O pai biológico de minha mãe, o vô Augusto. O pai biológico do meu pai, o vô Eliziário. E o vô Malta, marido da mãe de criação de minha mãe, que a adotou quando ela tinha uns oito ou nove anos de idade. A vó Hercília, avó torta, mas a única que realmente desempenhou esse papel na minha infância e na de meus irmãos.
O vô Malta era um homem culto, jornalista, ficou viúvo cedo com três filhas pequenas. Conheceu a vó Hercília, não sei onde nem como, mas acabaram se casando e formaram uma grande família, com quatro filhas mulheres.

Era na casa do vô Malta que passávamos os domingos e recebíamos mimos dos dois, desde que nasci. Uma casa acolhedora no bairro do Ipiranga, em uma rua tranquila, residencial. Me lembro que passeávamos no meio da rua, apesar das calçadas em ambos os lados. Era tão tranquilo; para que ficar no limite das calçadas se podíamos usufruir do espaço aberto de uma rua inteira?
E mais uma vez saímos para passear com meu avô, uma tarde qualquer; acredito que eu deveria ter uns quatro anos de idade. Estávamos eu, minha irmã e ele. Meu irmão mais novo era ainda um bebê nessa época.

Nesse dia, antes do passeio, eu estava brincando com a maquiagem de minha tia Dinah, filha mais nova do vô Malta. Dessa cena eu não me lembro exatamente. Mas lembro que a tia Dinah fazia muitas brincadeiras comigo e com minha irmã e provavelmente me ensinou a usar um batom, imagino, além do esmalte para as unhas. Eu fui passear me sentindo toda faceira, contente com o meu visual, inocente e feliz.

Saímos de casa e começamos nossa caminhada. O meu avô, distraído, pensando em alguma coisa, olhando para a rua e segurando as netas, uma em cada mão, nem percebeu, naquele momento, que eu estava pintada. Até que, no meio do caminho, me olhou no rosto, parou de andar e com o olhar severo, soltou nossas mãos. Não gostou do que viu.  Ficou indignado, afinal uma menina tão pequena, de batom e com unhas pintadas?  Com rispidez mandou eu ir imediatamente para casa tirar tudo, o batom, o esmalte, ou não iria continuar o passeio.

Essa cena foi impactante para mim, acredito que tenha sido a primeira repressão masculina em meu feminino. Eu estava contente, passeando, me sentindo linda e, de repente, recebo uma cortada violenta de alguém que eu amava muito. A ponto de eu nunca mais me esquecer desse fato, quando eu tinha apenas quatro anos de idade.

O que aconteceu depois eu não me lembro. Devo ter ido correndo pela rua deserta, chegado em casa e pedido ajuda da minha tia. E voltado a encontrar com ele e minha irmã, no mesmo local, agora com a cara limpa e as unhas incolores.
Obedeci, como faziam sua mulher e filhas. Nunca iria dispensar um passeio com o meu querido Vô Malta. Muito menos desagradá-lo.


A memória mais antiga contada por minha mãe
Uma garotinha de menos de três anos no berço. Acordou cedo e estava lá, sozinha, brincando distraída, fazendo suas necessidades fisiológicas matinais. A fralda estava cheia e vazou. O cocô saiu e ela, em plena fase anal, se interessou pelo que viu. Resolveu pegar, sentir o cheiro e a textura. Ainda não satisfeita, experimentou fazer uma arte e espalhar seu material de trabalho por toda a extensão de seu corpo, dos lençóis e do berço.

O silêncio da menina era preocupante, mas não durou muito. Logo sua mãe sentiu um cheiro bem desagradável no ar e foi ver o que estava acontecendo. Ao chegar lá, não teve dúvidas nem receio de também ficar lambuzada. Pegou a menininha e encheu de boas palmadas, pra aprender a não fazer lambança.

Minha mãe contou essa estória algumas vezes, o que me fazia sentir um certo desconforto. Ela, por sua vez, passava a sensação que tinha agido muito bem, ao me ensinar a lição e ter me dado “uma sova”, termo que gostava de usar para ameaçar os filhos quando faziam bagunça ou brigavam entre si. Sentia um tipo de orgulho, por sua ação tão primitiva e instintiva, sem a mínima noção do que significava fase anal.

Até hoje, mais de meio século depois, ainda sinto algum tipo de ressentimento, tristeza até, quando lembro desse fato.  Pra que apanhar por ser curiosa, para que bater em                                    criança com pouco mais de dois anos?

Coisas de minha mãe; esse foi apenas um primeiro episódio dentre muitos. Ela tinha um modo automático de lidar com as coisas. Sujou, limpou, guardou, assim, sem nem respirar, para dar conta das inúmeras tarefas do dia. E eu era mais uma tarefa que precisava dar conta e, naquela manhã, deve ter se sentido sobrecarregada. Descarregou sua raiva. Sujeira, cheiro de cocô, lençóis sujos, berço pra limpar, culpa. E ainda uma outra menininha esperava para ser amamentada.

11/05/2020
Alto Paraíso de Goiás

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