quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

 

MATURESCÊNCIA: O ENTARDECER DA VIDA


Maturescência, que palavra linda! A primeira vez em que a vi foi no livro A segunda vida das mulheres, de Christiane Collange, uma escritora francesa que dedicou sua vida ao trabalho com o feminino. Segundo ela, esse é um novo termo, inventado em Genebra, “para designar o período dos 40 aos 65 anos, as crises e mudanças que ocorrem durante o envelhecimento”.  Desde que conheci e me apaixonei por essa palavra, há vinte anos, a incorporei em meu trabalho com as mulheres maduras e a redefini, conforme pode ser visto no próximo parágrafo.

Maturescência significa a saída da vida reprodutiva feminina, para uma vida mais ativa e produtiva, em que a mulher vai parir a si mesma e que inclui a perimenopausa, menopausa e pós menopausa.

Se inicia na perimenopausa, com as primeiras transformações menstruais; alcança a última menstruação, a menopausa e vai além, na pós menopausa, até a nossa passagem, para outro plano, com a morte de nosso corpo físico.


A crise da Maturescência

Vivemos em uma sociedade que valoriza a beleza, a juventude e a fertilidade. É natural que, ao chegar à meia idade, venha uma crise, como aconteceu na adolescência. Na adolescência a chegada dos hormônios sexuais são responsáveis pelas transformações físicas, mentais, emocionais e espirituais dos adolescentes, na maturescência, ocorre o mesmo, com o desequilíbrio e diminuição desses hormônios. 

A Natureza pede transformações para continuar em evolução. É necessário deixar coisas para trás e incorporar outras, o que nem sempre é feito sem sofrimento. É aí que surge a crise. E crise leva ao crescimento. Crescer dói, mas traz também novas oportunidades. Na maturescência essa crise vai permitir sermos quem verdadeiramente somos. 

As alterações hormonais fazem parte do cotidiano feminino, desde a primeira menstruação. Ovulações, tensões pré-menstruais, cólicas, gestações, lactações, períodos férteis ou não, abortos, espontâneos ou não, com libido ou sem, são episódios comuns, corriqueiros, diários, regados pelos hormônios sexuais, o estrogênio, a progesterona e a testosterona. Eles acompanham e flutuam durante a vida da mulher, em seu ciclo reprodutivo, que podemos chamar também de ciclo do sangue.

Até que chega um momento em que os óvulos diminuem, a produção dos hormônios se desequilibra, torna-se irregular, as menstruações deixam de ser o que foram por décadas e a mulher sente-se confusa e atônita com tantas transformações. Ela entrou na perimenopausa e os sintomas, desconfortos, sinais, que vão se alternando por anos a fio, culminam com uma última menstruação, que irá se revelar doze meses depois. 

A menopausa se instalou, podemos dizer que ela é o portal da vida madura, quando se inicia uma nova fase. Tudo isso é simples e natural, mas como a própria vida, provoca altos e baixos, às vezes difíceis de administrar. Maturescência inclui maturidade, menopausa, envelhecimento... Vem tudo junto! Isso contribui para a crise da maturidade a que estamos todas sujeitas.

Maturidade significa ter cumprido etapas naturais da vida. Vários ciclos se abriram e se fecharam e cada uma de nós tem muitas estórias para contar. Os desequilíbrios hormonais provocam mudanças fisiológicas, sexuais e afetivas e assim como na adolescência, na maturescência essas mudanças voltam a surgir, relacionadas, agora, ao processo do amadurecimento.

O aspecto sagrado da maturescência, responsável pelos presentes que ela nos traz e que são aumento da criatividade, intuição aguçada e sabedoria, precisa ser resgatado e reconhecido. Poderemos sentir insegurança e medo do envelhecimento, atravessar uma crise existencial, mas nunca acreditar que a partir de agora não há mais razões para viver plenamente. Temos muita vida pela frente.

Atualmente, quando a menopausa se instala, podemos estar na metade ou termos vivido apenas um terço de nossas vidas. Com o aumento da sobrevida do último século, ganhamos quase trinta anos após a menopausa. Até o fim do século IX e início do século XX, as mulheres viviam em torno de 55 anos. Como a idade média da menopausa para a mulher brasileira varia dos 49 aos 52 anos, pode-se afirmar que sim, naquela época, ao chegar na maturescência, a mulher estava prestes a morrer. Isso mudou completamente e hoje, aos 50 anos, a mulher está no auge de sua vida.

Mesmo assim, a aceitação da maturidade, para muitas de nós, mulheres, é um desafio. À medida que avançamos nesse processo, que é longo e contém várias etapas, nos tornamos vítimas da invisibilidade e do etarismo. Atravessamos as crenças limitantes relacionadas à menopausa e entramos nos preconceitos relacionados à velhice. Há muito para avançar nesse sentido, no Brasil. Mas cada uma de nós pode contribuir para a mudança de mentalidade vigente, assumindo uma nova postura e vivendo com consciência essa etapa da vida.

Maturescer requer viver no aqui e agora. As lembranças do passado, com as experiências vividas, espelham a pessoa que fomos naquela época e que ficou para trás. Claro que se fôssemos revivê-las novamente, faríamos diferente. Portanto, não vamos carregar culpas e arrependimentos porque isso são como malas pesadas que não queremos largar pelo caminho. Aceitar e ressignificar o que passou traz muita libertação, nos deixa leves e disponíveis para viver o presente.

Temos sonhos a serem realizados. Se você não acredita nisso, experimenta fazer uma lista deles. Recentemente, acompanhando um terapeuta que sugeriu essa atividade, fiquei bem surpresa com a quantidade de sonhos que eu tenho e que ainda não foram realizados. Cada um deles pode se tornar um projeto de vida. Muitos deles talvez estejam distantes e não haja mais tempo disponível nessa vida para concretizá-los. Não importa, eles estão aí e são suficientes para me trazerem motivação para viver.

Manter a chama da vida acesa, como novos projetos para o presente e para o futuro, é essencial.  Nunca deixar a sombra de que “não temos mais nada para ser feito”, ou que “o nosso tempo já passou”, se aproxime. Viver cada dia plenamente e como diz Estés, em seu livro Ciranda das Mulheres Sábias:  “ser jovem enquanto velha e ser velha enquanto jovem”.


 Referências:

COLLANGE, C. A segunda vida das mulheres.Barueri: Sá Ed., 2005.

ESTES, C.P. A Ciranda das mulheres sábias.Rio de Janeiro, Ed. Rocco,, 2007.

Foto de um Circulo de Mulheres Maturescentes, realizado em Alto Paraíso de Goiás, em 2022.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

 


Manhã de sábado

 

Tive uma ótima noite de sono.

Acordei com o coração leve e feliz.

Expandido, aberto e cheio de gratidão.

Ontem, quando estávamos juntos,

Percebi, mais uma vez, a qualidade do nosso encontro.

As poucas horas que passamos juntos são como dias a fio.

O tempo para, não tem passado, presente ou futuro.

Só o agora, que transborda, preenche, aquece.

Que não passa, permanece.

As almas sorriem, os corpos desfrutam.

O prazer permeia cada poro de nossas peles.

Quando se tocam, fico arrepiada e respiro fundo

Respiro mais, sinto mais, até as estrelas brilharem.

E a vida pulsa forte dentro de mim. 

 

 

Livia Penna Firme Rodrigues

20/08/2022

 

Porque sou uma velha sem vergonha

 

Porque tenho a liberdade de fazer o que eu sinto vontade.

Sim, isso é uma delícia! Fico sem calcinhas, quando uso vestido ou saia rodada. Ando de pés no chão, no gramado ao lado do meu prédio.

Abraço as árvores, quando estou no parque. Tomo banho nua, quando vou na cachoeira.

Canto para a lua cheia, ao lado da fogueira. Danço sozinha, sem roupas ou com, nas festas e na biodança.

Vejo meus filhos quando quero, digo "não" se não me sinto disponível para ficar com os netos. E quando estou com eles, entro nas brincadeiras, sem nenhuma vergonha.

Viajo por minha conta ou em grupo, sem vergonha de ser feliz. Vou para o cinema, teatro, restaurante e cafés, sozinha, se não tenho companhia, sendo fiel à minha vontade de sair.

Administro minha vida e meu dinheiro, sem dar satisfações para ninguém. Cuido de minha saúde física, mental, emocional e espiritual; essa é uma prioridade para poder curtir minhas sem vergonhices, sem limites.

Tenho muitas amigas, tão sem vergonhas quanto eu. Moro sozinha, curtindo minha solitude e as delicias de ser uma velha sem vergonha.

Mas tenho um sonho de ao envelhecer mais, morar com outras pessoas, tipo uma comunidade, que eu apelidei de "velhódromo", repleto de velhas e velhos sem vergonha! Nossa, que delícia, passar os últimos anos de vida assim.”

 

(Resposta ao convite de @miriangoldenberg para participar de um concurso, ganhar seu livro e uma camiseta. Fui contemplada!)

Livia Penna Firme Rodrigues

Brasilia, 2023.