quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Uma Velhice Empoderada




Sou uma mulher nascida na década de 1950. Pertenço a uma geração que realizou profundas transformações na Sociedade. Feminismo, pílula anticoncepcional, revolução sexual, aspectos responsáveis por incríveis mudanças de comportamento no final do século XX.
Lembro-me dos valores rígidos do meu pai em minha infância e adolescência. Da necessidade de fazer negociações com minha mãe para conseguir ir a uma festinha no fim de semana. Era ela que intermediava as conversas paternas para obtermos a devida autorização.
Ao chegar à Universidade, o ambiente familiar ainda era o mesmo. Só que eu tinha crescido e com muita imaginação, planejava estratégias fantásticas para não dormir em casa. Claro que tinha parceiras, amigas que também precisavam inventar estórias para visitar a república onde moravam nossos namorados. E para nossas mães, estávamos uma nas casas das outras, estudando. Minha mãe nunca checou se era verdade ou não e eu, sinceramente, não tenho nenhum remorso.
 Aos dezenove anos tomava pílula escondida. Fiz minha primeira consulta ginecológica com a médica da Universidade, também sem minha mãe saber. Essa ginecologista me deu as principais orientações para o início de minha vida sexual. Inesquecível. Sou grata a ela até hoje.
E assim foi e muita água já passou debaixo da ponte. Atualmente tudo mudou. Meus filhos viveram uma realidade bem diferente. Traziam os namorados para casa, fumavam e bebiam na frente dos pais. Um clima de confiança e liberdade que nunca tive o privilégio de conhecer.
Meus pais, aos cinquenta anos, se sentiam velhos. Lembro que minha mãe, uma vez, se recusou a vestir o maiô para ir à praia por sentir vergonha do próprio corpo. Ela tinha uma autoestima muito baixa. Lembro que a questionei sobre isso e no auge dos meus 34 anos, na época, tinha uma influência sobre ela, que acabou refletindo e vestindo o maiô.
Mas as queixas dos dois sobre a velhice permaneceu por anos a fio. Não havia um preparo para viver essa fase. E a verdade é que, em pouco tempo, a média de vida aumentou rápido devido à melhoria de vida, dos medicamentos, da informação sobre saúde entre outros aspectos. E foi uma surpresa para eles terem que viver tão mais, considerando que seus antepassados se foram aos cinquenta e poucos anos. A maioria deles, pelo menos. Ou muito mais cedo. Minha avó materna morreu no parto e minha avó materna, de tuberculose. Mulheres jovens que deixaram órfãos seus filhos em tenra idade; meu pai aos quatro anos, minha mãe aos três. Vida difícil, de carência afetiva e material.
Ao se aposentarem, meus pais desfrutavam de um padrão de vida confortável. Tinham casa própria e carro. Moravam em uma tranquila cidade do interior. Mas a insatisfação com a velhice permanecia. Eles não sabiam lidar com isso, era um desconhecido que incomodava. A morte dos amigos e parentes os assustavam, as dores pelo corpo também. E o tempo livre contribuía para aumentar esses fantasmas que os rodeavam.
De alguma forma absorvi essa energia e frequentemente me vejo pensando como eles. Com o mesmo tipo de preocupação e descontentamento. É um padrão que se repete e que se não estivermos atentos, acabaremos repetindo, sem dúvida nenhuma.
Lembro-me de todas as mudanças realizadas pela minha geração nos idos de 1970 e 1980.  E reflito que agora, cabe a nós realizarmos mais uma profunda mudança. Na forma de envelhecer.
Não sei como, temos que inventar, reinventar, descobrir. E começo pelo que não quero em minha vida. Sem longas horas em frente à TV. Sem drinks na hora do almoço, diariamente, para anestesiar. Sem uma solidão a dois em uma casa grande, com poucos vizinhos e quase nenhum amigo. Sem a nostalgia do passado e de que meu tempo já passou. Sem a espera pela visita dos filhos e netos. Sem uma quantidade enorme de cães e gatos para cuidar, dar e receber carinho.
Não é uma crítica, esse foi o caminho possível para os meus pais. Mas coloco novamente minha imaginação para funcionar e visualizo minha velhice de outro jeito. Com muitos amigos ao redor, morando perto, cada um em sua casinha. Em um mesmo terreno, com áreas de lazer comuns, para nos exercitarmos e assistirmos filmes. E para meditarmos e dançarmos juntos. Uma horta e cozinha comunitárias. Com rodizio para cozinhar. Acender o fogão à lenha, tocar tambor, ouvir música, ficar em volta da fogueira e fumar um pito. Com a presença de pessoas jovens também, para cuidarem de nós e fazerem o serviço pesado.
Precisamos mudar o paradigma atual do envelhecimento e mudar os condicionamentos mentais. Eles são fortes e estão aí, sempre, pairando no inconsciente coletivo. Eu necessito, diariamente, ter consciência para revertê-los. Sem deixar de aceitar que os anos passam, a pele enruga e  torna-se flácida, os cabelos embranquecem e caem.  Isso não significa deterioração. É apenas uma condição natural de ser humano.
Sim, mas vou conseguir. Assim como consegui driblar a autoridade do meu pai quando era adolescente e também mais tarde, na casa dos vinte anos. Conseguiremos juntos, amigos e amigas. Teremos, sim, uma velhice empoderada.

 Alto Paraíso de Goiás, 17 de janeiro de 2019.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Será que estou velha?






Esses dias reencontrei um amigo de algum tempo, que nem mora aqui, veio a passeio. Foi bom vê-lo na noite, em uma festa de início de ano, onde estavam presentes muitas pessoas queridas. Foi um encontro bom, caloroso e afetuoso. Em meia hora já tínhamos atualizado vários assuntos. Agora ele estava separado, de licença do trabalho, dando um tempo para si e descansando nesse local lindo.
Senti-me rapidamente atraída por ele, como já tinha acontecido outras vezes, mas como era casado, nunca houve nada entre nós. Dessa vez meu coração vislumbrou uma possibilidade. Sim, absolutamente unilateral. Uma criação de minha mente, embalada por anseios antigos de amar e ser amada.
Dois dias depois combinamos de ele vir na minha casa. Tomamos café, conversamos muito de forma fluída, um assunto depois do outro. Descobrimos que trilhamos diversos caminhos parecidos, do ponto de vista espiritual. Mestres, xamanismo, santo daime, meditação, constelação familiar, terapias e outros. Isso me agrada muito quando conheço alguém, pois significa que há uma busca pelo autoconhecimento. O moço me encantou ainda mais, pois nunca tínhamos tido oportunidade de nos conhecermos melhor.
Ao anoitecer, ele iria encontrar uns amigos em um evento e simplesmente me convidei para seguir junto. Fomos a pé, o por do sol estava esplêndido, tingindo o céu de vários tons de rosa e laranja. Os pássaros cantavam, araras e tucanos voavam se despedindo de mais um dia. É simplesmente delicioso caminhar por ruas quase desertas, repletas de vegetação. Passar pela casa de uma amiga e entrar e conversar um pouco. Encontrar outra na rua e bater outro papo. Subir e descer, fazer curvas, andar no plano, reconhecendo cada recanto desse lugar que eu amo.
Uma hora e meia depois chegamos ao tal evento. Uma fogueira ardia no centro de uma roda, com várias pessoas, que ouviam os acordes de um  violão. Um refletor projetava mil luzinhas coloridas em uma mangueira enorme, que contrastava com a noite estrelada e linda. Na lanchonete ao lado, um cheiro e sabor delicioso de pão de beijo recheado com cogumelo ou pequi, a escolher. Preferi a primeira opção, ele a outra.
Já quase dez horas da noite, resolvi voltar pra casa. Estava receosa de ir andando sozinha e pensava em conseguir uma carona, ou até ligar pra minha filha para vir me buscar. Rapidamente ele se ofereceu pra me acompanhar. Como sou uma mulher solteira e desacompanhada, acostumada a tomar as próprias decisões, resolver meus problemas individualmente, me espantei com sua delicadeza.  Tomei consciência de como estou desacostumada a receber esse tipo de cuidado ou mesmo de ser protegida por um homem. São muitos anos sozinha, sem um namoro ou um casamento.
Mais uma vez minha mente voou longe. Nossa que delícia estar acompanhada, ter alguém ao meu lado, para trocar ideias, acompanhar em uma caminhada pela noite ou simplesmente estar ali, do meu lado. De repente percebi como ainda tenho esse desejo enraizado dentro de mim. Às vezes sinto que os amigos são suficientes; os netos e filhos cumprem esse papel. Mas não, que equívoco. Nada como ser complementada pela força do masculino, afinal sou uma mulher que aprecia essa energia.
De volta para casa, conversávamos sobre o calendário maia, sua descoberta mais recente que, pelo visto, exercia um forte encantamento nesse rapaz. Há vinte anos compartilhei desse calendário, participei de eventos, comemorei dias fora do tempo e até hoje lembro que meu kin é noite cristal azul. Isso tem vários significados, mas que não vem ao caso aqui. Atualmente existe um aplicativo de celular que calcula, a partir da data de nascimento, a qual kin, uma espécie de signo, se pertence. E apesar de já ter dito a ele que o meu kin, repito, é noite cristal azul, ele queria colocar o dia em que eu nasci no seu celular para ver se era isso mesmo.
E aí aconteceu o desencanto. Ele ficou incrédulo! O que, 1950? Sim, eu disse, está me achando velha? Não, você está ótima! Ele respondeu. Mas eu senti a energia, a decepção, sim, essa mulher tem quase setenta anos! Não parece, mas essa é a realidade.  Mais tarde, depois que ele foi embora, me questionei se isso era coisa da minha cabeça, se eu estava projetando algo de dentro de mim, em relação à idade, ao envelhecer. Tenho trabalhado essa questão internamente, pois não é fácil vencer os condicionamentos, os preconceitos, os limites existentes, principalmente para a mulher, de amar um homem mais novo, nessa altura da vida. E para confirmar, ele sumiu, não apareceu mais. Foi apenas uma visita e um devaneio de minha parte.
Tive um choque de realidade. Minha alma é de uma moça de trinta anos, com os mesmos anseios, os mesmos desejos de ser feliz no amor, às vezes até com a ilusão de encontrar o príncipe encantado. Mas o príncipe quer uma princesa, de pele jovem e macia, sem as marcas do tempo.  E me dei conta de quão madura estou, tão madura que já não satisfaz o apetite de ninguém.  Como aquela fruta que já passou do tempo e pode apenas servir de semente. Isso não é pouco, eu sei, ser semente. Ou virar adubo. Ou ser simplesmente jogada no lixo.
 Mas e a mulher que está aqui dentro? O que eu faço com ela? Como eu lido com esse coração que anseia por amor? Será que não tenho mais esse direito porque tenho 68 anos? Meu tempo acabou, é isso mesmo?
Não sei responder essas perguntas. Ou as respostas são difíceis de engolir.  No momento sinto apenas um vácuo dentro de mim. Olho para dentro, me recolho, respiro fundo. Medito nesse desapontamento. 
Não há nada a ser feito, a não ser aceitar a vida como ela é. E ainda agradecer por estar e me sentir viva. Por ainda querer amar, por acreditar que isso é possível. E continuar, pois essa alma jovem é que me leva para frente, me engana e  me faz acreditar que posso ser a feliz namorada de um homem mais jovem e de olhos azuis.

 Alto Paraíso de Goiás,  8 de janeiro de 2019.