domingo, 9 de setembro de 2018

Crônicas de Amores Não Vividos - 3




                                                      Sim, estou VIVA!


Um homem, moreno, cabelos pretos e lisos, pele macia. Quente? Talvez. Ainda não experimentei para poder afirmar isso, apenas senti seu cotovelo junto ao meu por alguns segundos. Mas foi o suficiente para eu perceber uma espécie de pontada lá embaixo. Puxa, estou viva.

Lábios grossos, carnudos, como se fossem de negro. Mas esse homem não chega a ser mulato, embora o tom de sua pele faça parecer. Belo semblante. Sua figura me faz imaginá-lo fazendo amor com uma mulher loira, linda, alta, com um corpo deslumbrante, essas de propaganda de cerveja na televisão. Como se fosse um antídoto para sua morenice cabocla, oriunda do sertão paraense, cheirando a floresta.

          Mas pelo que os amigos dizem, o belo rapaz não tem namorada e embora esteja chegando à casa dos quarenta anos, nem mulher, nem filhos. Sua grande paixão são os papers, aqueles artigos científicos que os acadêmicos precisam publicar. E ele leva muito a sério essa função. Tão a sério que não dá para fazer mais nada, a não ser escrever os benditos/malditos papers.

O belo rapaz faz isso muito bem. Doutorado e pós no Canadá. Fala três ou quatro idiomas. Tem a voz grossa e quando defende um ponto de vista, é com certeza e discernimento, usando vários argumentos convincentes. À platéia que o assiste resta apenas balançar a cabeça em sinal de sim.

Com freqüência se atrasa para as reuniões de área e colegiado, pois seu tempo é precioso. Ao chegar, de braços dados com seu laptop, sua companhia mais constante, dá um sorriso com palavras de desculpas aceitas por todos. É um sinal de respeito pelo professor mais brilhante da equipe.

Mas aos meus olhos as coisas são diferentes. Os seus louros acadêmicos não me mobilizam, me atraem seus lábios carnudos. E nos meus sonhos me sinto beijada por eles. E fecho os meus olhos para senti-los, úmidos e quentes a roçar meu corpo, minha boca, meu sexo. E meu coração dispara, me sinto arder por dentro, me torno enebriada por esses pensamentos, peço que sejam sonhos verdadeiros, eternos! Como uma adolescente, meus olhos brilham; sorrindo sozinha sinto um orgasmo platônico que me arrepia toda.

E ao acordar, me deparo com a realidade. Como meus sonhos são fugazes e longínquos. Em meu íntimo, tenho a certeza que se fosse há trinta anos, esse belo rapaz não me passaria em branco. Agora preciso lidar com os fantasmas que rondam minha mente; acredito serem frutos do condicionamento que recebi sobre o viver muito e mais, os anos que pesam, a idade que limita os prazeres terrenos, não seja uma mulher ridícula!

Procuro não acreditar, luto com essas limitações, sim sou a mesma, eu ainda sou aquela mulher ardente! E continuo dando asas à minha imaginação. Quero sentir o coração desse homem! Sim, ele tem um coração que pulsa, tem sangue e testosterona em suas veias. Outro dia ele afirmou em uma reunião “sou um cabra macho”. Isso atiçou ainda mais a minha fêmea, que anda morna devido à  ausência dos hormônios, mas está viva!  Sim estou viva, o sangue também corre em minhas veias, meu coração bate com a possibilidade de ser amada.

Lembro da peça que assisti recentemente, “ensina-me a viver”, uma estória de amor entre um jovem em seus vinte anos com uma mulher de oitenta. Percebo o quanto estamos, esse belo rapaz e eu, longe desses extremos; a distância entre nós é muito mais curta! Tenho a certeza que tudo é possível. Sonhar, manter o fogo da paixão.

Sim, estou viva!

Brasília, 2011

sábado, 8 de setembro de 2018

Crônicas de Amores Não Vividos - 2




QUASE UM MENINO

Quase um menino, é o que aparenta ser. Mas na realidade, já é homem feito, pai de três filhos. Ainda não chegou aos quarenta. Cabelo comprido, bonito e fuma sem parar, um cigarro após o outro. O que será que ele precisa acalmar, que fome é essa que vem de dentro que cria tanta ansiedade?

Perguntas sem respostas. O que sei  é que se separou recentemente da mulher, uma ligação longa, desde os tempos da adolescência. Mágoas de não ter sido bem cuidado enquanto fazia sua tese de doutorado, trabalhando horas a fio sem comer, nem siquer um sanduíche! E olha que o rapaz tem um apetite daqueles; nos encontramos em Santa Fé, Argentina,  em um Congresso e pude presenciar seus almoços, entremeado por baforadas de fumaça.

Muito lindo ele, impossível não despertar amor, amor confundido com maternal. Mal sabe ele que só lhe quereria como filho se fosse com complexo de Édipo! Mas ele insiste nisso, afinal tenho um filho com a idade dele e isso o conspira a me ver como mãe!

Temos muitas afinidades, como diz ele, somos almas gêmeas espirituais. Gostamos do Cerrado, temos valores parecidos, nos empolgamos com a simplicidade das coisas, gostamos de caminhar, de preferência entre gente bonita, observando bocas e bundas, pernas, curvas, de homens e mulheres, além de seus bem cuidados cachorros, como aconteceu em Santa Fé.

Torcemos pelo crescimento de meninos e meninas que vivem no campo, contribuímos com a educação dos calungas, prestigiamos sua cultura. Ele leva a comunidade a  plantar nos assentamentos, sob sua orientação; eu conduzo oficinas de culinária, utilizando e valorizando o que foi plantado. Uma complementação de afazeres, em prol da sustentabilidade!

Sustentabilidade, que belas aulas sobre esse tema foram dadas por ele. Mas, além disso, me povoa  o coração e a mente com fantasias. Talvez me atraia sua timidez, seu jeito doce, seu olhar. Olhos puxados, boca carnuda, parece um menino. Mas sei que por dentro tem um homem. E que homem! Delicado, mas firme. Suave e forte, calmo e fogoso, malicioso e ingênuo. Capaz de dormir com as putas, mas sem encostar em nenhuma delas. Conversar com todas as pessoas na rua e cobiçar as mulheres nas calçadas. Rir muito e chorar, também. Se alegrar e sofrer, se buscar e se encontrar, num exercício permanente de vida.

Oi menino, gostaria de apertar você em meus braços, dar um cheiro em seu pescoço, debaixo desse cabelão. E  sentir minhas mãos deslizando pelo seu peito, seu coração, sentindo seus pelos, sua pele, lhe deixando arrepiado,com vontade de me querer. E se você me quisesse, nossa quanta coisa gostosa poderíamos fazer juntos! Além de amor, massagens com óleo aromático. Além de mais amor, tomar caldo de mandioca, suco de mangaba, café, sorvete de doce de leite.  

Creio que me sentiria uma mulher no auge de minha sensualidade, capaz de satisfazer todos os seus desejos, com muito amor, sempre.

Brasília, 2011

Crônicas de Amores Não Vividos - 1




Ele acabou de se tornar pai

Não faz nem quarenta horas e nasceu sua primeira filhota. Sentiu-se perdido e apavorado com o longo trabalho de parto, a menininha estava lá no canal e a mãe não conseguia empurrar. Com a voz trêmula  resolveu me pedir ajuda, em um telefonema  tarde da noite.

Claro, sim, posso sim... se acalma, confia! Eu confio nessa médica, é assim mesmo, de repente é bom você sair um pouco do quarto, deixa lá as mulheres resolverem essa situação sozinhas. Se ela não consegue fazer força...bem, deve estar cansada, mas força só durante as contrações... A neném está sendo escutada? Ah, então tudo bem, está tudo normal...confia.

E depois desse telefonema orei profundamente, pedindo para que esse parto tivesse um desfecho feliz. E grata, grata estou, pois no dia seguinte de manhã recebi a notícia, mãe e bebê passam bem

Você foi muito importante!

Nossa, me senti lisonjeada. Esse homem é especial. Há tempos não me deparava com um homem tão lindo. Não é só beleza física, mas essa também conta. Olhos esverdeados profundos, cabelos grisalhos, braços aconchegantes, pernas que dançam e levam uma dama muito bem. Um sotaque leve de recém chegado do interior paulista e lindas estórias para contar. Cria duas gatas, me ensinou sobre como cuidar de felinos. Toca sanfona (pode?) e canta como os pássaros. Melhor ainda são suas mãos na cozinha; patê de ricota de indescritível paladar, samozas indianas recheadas com creme de ervilha. Huuuummm!!!

Casadíssimo e muito fiel. Há um ano, em uma reunião de amigos, tomamos um vinho juntos. Conversávamos animadamente e eu me sentia livre, leve e solta, colocando opiniões, idéias... e o vinho estava subindo em minha cabeça, e eu estava cada vez mais encantada com o charme dele, seus olhos também brilhavam, e eu continuava a  relatar fatos, descrever como é viver no Planalto Central, tomar banhos de cachoeira em Alto Paraíso... De repente ele disse que eu  “ era meia maluquinha”.... e  a conversa acabou aí. Acho que ele percebeu meu encantamento e saiu fora...Mas tiveram outros momentos e um dia, inteiramente maluquinha, eu disse a ele que é um colírio para os olhos.

Bem, depois disso tudo, sua mulher ficou grávida e o foco mudou. Passei a olhar para ela, já que sou uma doula. Presenteei o casal com meus livros sobre gravidez e parto humanizado.Recolhi minha admiração e tesão pelo futuro papai. Mas no chá de bebê não perdi a oportunidade de dizer que se a herdeira puxasse por ele, seria linda! Nesse dia ele mal sorriu, percebi seu semblante cansado, embora tivesse cantado e tocado na festa. Estava com um leve ar de excesso de responsabilidade, pesando nas costas e talvez Brasília já não lhe trouxesse mais aqueles encantos de quando recém chegado. E sabe lá, de repente estivesse com o sexo atrasado, pois sua mulher estava com ameaça de parto prematuro. Mas tudo isso são apenas minhas viagens mentais, para justificar a total impossibilidade de ser algo mais que sua amiga doula.

            E ontem, depois que ele me relatou o restante do parto, perguntei a ele com quem que a neném se parecia e não deu outra. É a cara do pai... Então é lindíssima, respondi.

 Brasília, agosto de 2010

Cartas a meu Pai - Epílogo





Querido Pai,

Continuei com a vida corrida da Universidade. Lendo e escrevendo muito, mas não para você.

Recentemente, me aposentei. Tenho escrito para as mulheres maturescentes. O que é isso? Ah, são aquelas que saíram da vida reprodutiva, para sua fase mais produtiva. E como é difícil isso, meu Pai. Porque? Parece que elas não querem me ouvir. Mas como sou resiliente ou até uma cabeça dura, continuo. Tenho um blog, páginas no face book e um livro só para elas. Fiz um canal no you tube  onde gravo vídeos para elas. 

Minha audiência é ainda bem pequena, meu Pai.Tudo bem, isso não é uma queixa. É apenas um trabalho que só está começando. E quero, preciso continuar trabalhando. Gosto disso e quero manter minha mente ativa. 

Meu objetivo é empoderar as mulheres de meia idade. Sim, eu acredito nisso. É um trabalho necessário. Não sei se você me entende; em sua época esse tema não era falado e as mulheres não tinham voz nenhuma.

Hoje meu tempo é outro e pouco, acho que porque passa muito depressa. 
Mas, principalmente, meu coração está pleno e já não sinto necessidade de escrever para você, meu Pai. O amor foi  ressignificado, as dores perdoadas e  meu peito está sereno.

Quando minha mãe morreu há três anos, já com quase 94 anos, eu estive perto dela. Eu e meus dois irmãos passamos juntos quinze dias, lá na casa, nos despedindo. Foi uma morte natural, tranquila. E eu cumpri o que tinha me prometido. Fiquei leve com sua partida, com sensação de dever cumprido.

Criei um novo blog e estou publicando essas cartas que estavam, há dez anos,  guardadas  em meu computador. Peço sua permissão, meu Pai. Elas trazem um sentimento de gratidão, realização e também de homenagem, para alguém que amei muito nessa vida. Você.

Tenho orgulho de ser sua filha.

Com muito amor.

Cartas a meu Pai - 7




Querido Pai,
Eu não tenho escrito nada, a não ser relatórios e projetos de pesquisa, às vezes um artigo acadêmico. Hoje mesmo, ao caminhar, me lembrei que esqueci que escrevo também por prazer, que gosto disso e que não estou dando a devida atenção para esse fato. 

De certa forma isso me entristece. Tem horas que tenho umas idéias legais, mas como já disse anteriormente, se perdem no vento. Quantas cartas já me passaram por minha cabeça e eu não as escrevi. Quantas vezes recebo  lembranças que deveriam estar sendo registradas aqui, pois me comprometi a  escrever para você, mas elas não se concretizam.

Hoje mesmo eu estava pensando, puxa está na hora de priorizar, andar com uma cadernetinha na bolsa e escrever meus insaites,  recordações, fatos vividos e temas que gostaria de desenvolver. E me disciplinar pra isso. 

Só porque a internet não está funcionando, resolvi dar uma pesquisada em meu computador, já que estou de férias e reler essas cartas. E gostei do que li, me trouxe um contentamento, mesmo porque percebi quanto eu cresci nesses anos, quantas mágoas e ressentimentos foram dissolvidos e quanta coisa boa eu tenho para lhe falar! 

Mesmo trabalhando eu poderia me dedicar, pelo menos ma hora por dia, à escrita. Até meu diário foi deixado de lado! Outro dia recebi um email de uma amiga de Natal  que fazia um balanço sobre sua produção  anual e nossa! Fiquei muito admirada, que escritora incrível, como produz,  livros, crônicas, poesias, artigos, blogs. 

Nem preciso dizer que me perguntei porque não faço o mesmo, pois sinto em meu peito essa ânsia, está mais do que na hora de colocar para fora.
Então meu Pai, pensei em voltar a escrever para você. 

Em meu trânsito astrológico desse ano, está dito que voltarei várias vezes ao passado para ressignificá-lo. Minha vida com você, essa é a primeira função, a mais básica. Irei ressignificar o passado, para estar cada vez mais no presente.

Com amor, de sua filha.



Cartas a meu Pai - 6




Querido Pai,

Fiquei anos sem dar continuidade à essas cartas, elas passavam pela minha cabeça e iam embora, como o vento. Eu tinha vários motivos para isso, principalmente, nos últimos cinco anos, o doutorado que, finalmente, consegui concluir. 

Ele foi dedicado a você, meu Pai. Eu sempre soube que você queria uma filha doutora. Acho que essa foi a força que me motivou a continuar, pois a cada vez que eu questionava esse doutorado aos 58 anos de idade, me vinha essa lembrança. E muitas vezes, em  momentos de incerteza,  sentia sua presença me dando força e coragem.

Hoje estou aqui na casa da mamãe; ela esteve doente, pensei que fosse morrer. Prometi a mim mesma que quando ela precisasse de mim, nesse momento da vida, eu não estaria ausente como estive com você. 

Já vim pro aniversário dela em novembro, quando completou 88 anos. E agora, dezembro, passar o Natal. Disse aos meus irmãos que iria ficar até meados de janeiro, mas ela está bem, tem muita vitalidade, acho que vai viver até os 95, pelo menos. 

Ela estranha minha presença constante e eu, começo a contar os dias. Até que, ontem, quando decidi marcar minha passagem de volta,  ficamos mais calmas e relaxadas. Vou ficar até dia 29, depois vou curtir o réveillon com minha filha e amigos.

Minha mãe ainda pensa que estou abrindo mão da presença de meus filhos para estar com ela e isso a incomoda. Ela esqueceu que seus netinhos de antes viraram adultos. Tem só uma adolescente que está louca para viver suas experiências longe dos pais.

Cada Natal nessa casa me traz sua lembrança com muita força. Sinto sua falta. Falta de sua alegria, das piadinhas após o seu uisquinho sagrado de cada dia. Esse drink diário me incomodava e também a minha mãe. Mas hoje tudo isso é tão irrelevante!

 O que sobrou foi seu amor, o nosso amor. Isso será eterno. 

 De quem te ama muito, sua filha.



Cartas a meu Pai - 5




Querido Pai,

 Sua presença masculina foi tão forte em minha vida que até hoje busco nos homens essa mesma energia. Sua vitalidade, seu tesão pela vida, sua luta constante pela sobrevivência. Sua determinação em dar o melhor para seus filhos. E sinto tudo isso dentro de mim.O meu homem interno tem muito de você. E procuro suas qualidades no homem externo.

Sei que você não era perfeito. Descobri recentemente que aos 50 anos você começou a ter problemas de ereção. E que nunca buscou ajuda para resolver isso. Mamãe até hoje acha que os homens, a partir de cinqüenta anos,  “não funcionam mais."

Sinto que isso pode ter contribuído para o desenvolvimento do câncer de próstata que o fez ir embora precocemente. Todo mundo tem sua hora, mas essa hora pode ser alongada ou abreviada, dependendo de como cuidamos da vida, isso ninguém me tira da cabeça. 

Acredito na medicina preventiva. Sei que se você tivesse cuidado melhor de sua sexualidade, com certeza teria vivido seu prazer com mais plenitude e até convivido com o câncer por mais tempo. Não teria sido essa coisa arrebatadora que, em seis meses, tirou sua vida. 

Vida material, de seu corpo, pois sei que você está aí do outro lado, em algum lugar, vivendo a jornada de sua alma. Mas é de materialidade que estou falando. Cuidar da vida, do corpo, do trabalho, do dinheiro, dos filhos, isso tudo não é vida material? 

Mas  será que dá pra ficar separando o material do espiritual? Acho que é tudo uma coisa só. Uma vez uma Shaman me disse: “o sagrado começa quando a gente acorda e acaba quando a gente acorda”.

Mas Pai, hoje eu vim lhe perguntar por que o homem que mais amei nessa vida, o pai de quatro filhos queridos, é exatamente o oposto de você? Por que atraí um homem assim, que nunca gostou de estar casado, que tem um tesão muito pequeno, aliás, ele não dá a menor bola pra essa coisa de sensualidade.Diz que já transcendeu. Nunca se preocupou em ganhar dinheiro, em ser próspero. 

Será que é porque nunca passou fome na vida como você? Por que eu tenho tanta dificuldade em aceitar essas profundas diferenças e ainda me iludo com uma reconciliação?  

Projetei nele a sua energia vital, a sua vontade de ficar rico. Ele, há algum tempo, não se interessa por mulheres, nem por mim. Uma mulher comum que gostaria de envelhecer com seu homem. Com os meus homens, ele e você, meu Pai.

Com amor, sua filha.


Cartas a meu Pai - 4




Querido Pai,

"Estou me sentindo mal". Nos últimos tempos, essa tem sido minha queixa básica. 

Puxa pai, me lembro do seu processo do câncer e uma vez quando me perguntou, inconformado, porque tinha que sentir tanta dor, sofrer tanto, eu não respondi. Não sabia o que dizer e, principalmente, não tinha a menor noção do que isso significava. 

Só agora estou tendo um vislumbre do que é estar doente. Ficar dependente das pessoas, não conseguir caminhar sozinha, não trabalhar como antes, sentir insegurança e medo, muito medo. Medo de nunca mais ser o que eu fui. 

Me pergunto por que. E a resposta que vem é que estou muito apegada a tudo, até a meu jeito de ser. Essa deve ser a razão para sentir tanta tontura. 

Sei que vivi um processo difícil nos últimos anos. Sair de Alto Paraíso, até hoje sinto uma tristeza por isso. Simplesmente porque gostaria de olhar no horizonte e ver o céu rodeado de montanhas. Saber que em cinco minutos estaria debaixo daquela cachoeira, vendo os beija flores e os tucanos, às vezes um par de araras riscando o céu. 

Eu sei Pai, tudo muda. Eu quero sarar dessa tonteira. Nos últimos dias tem me dado uma vontade de mudar tudo. Tenho observado os ipês floridos de Brasília com muito amor e pedido que a vitalidade e o rosa intenso daquelas flores que formam um lindo tapete no chão, invadam a minha vida. 

Não é possível que eu continue tonta, negando o presente, sem querer olhar o passado, sem saber para onde ir. Sei que essa é a causa básica desta labirintite que tem me atormentado tanto. 

Pai, eu esqueci aquele homem, eu quero outro homem, com certeza o calor de noites de amor farão me sentir melhor. Puxa, Pai, eu só tenho 52 anos. 

Quando você ficou doente também era moço, poderia ter vivido muito mais, estava na casa dos setenta anos. Quero viver pelo menos oitenta, ser assim como a mamãe. 

Ela me falou que tem alguma coisa espiritual me atrapalhando, que eu posso ser médium, por isso tenho esse zumbido no ouvido. Sabe, eu até acredito,  mas não gosto daquelas sessões de desobsessão no centro espírita. Acho que não preciso daquilo. 

Nem daqueles enormes trabalhos do Santo Daime, que me deixam absolutamente exausta. Eu fui lá na semana passada para constatar, mais uma vez, que aquele não é o meu caminho.

Meu Deus está dentro. Confio no meu anjo da guarda, ele me protege muito bem.  Quero me desapegar de modelos, caminhos e jeitos de ser antigos. 

Sim, com certeza é isso.

Com amor, sua filha.




Cartas a meu Pai - 3




Querido Pai,

É sempre com alegria e prazer que relembro aquelas caminhadas a pé indo para o Sítio. Quando saio para passear com meu cachorro nas entre quadras arborizadas de onde vivo, sinto um bem estar gostoso e ancestral. 

Acho que minha criança interior se torna aquela que descia do ônibus com você e o resto da  família, inclusive  nosso cachorro, numa estrada de terra, onde caminhávamos por três quilômetros e meio até chegar ao sítio. 

Meu Pai,  você  seguia a frente com passos rápidos, alegres, entusiasmados. Não nos deixava para trás; sua energia nos puxava até nosso destino, juntos.

O bem estar que sinto quando respiro fundo o aroma do ar e o vento do outono nas calçadas, pelas manhãs, com certeza trazem à tona aquela menina admirada e enamorada por você, meu pai.

Com amor, sua filha.

Cartas a meu Pai - 2




Querido Pai,

Hoje me irritei com minha filha, a sua neta. Sabe Pai, cada vez que perco a paciência com ela me sinto aquela menina, sua filha, que estava recebendo uma bronca. Parece que até as palavras que eu uso são as mesmas que você dizia.

E com certeza são. As palavras eu sigo repetindo e quanto mais brava eu fico, mais inconscientes elas se tornam. Saem automaticamente, como um turbilhão. E expressam a dor que fica por trás de uma raiva enorme, descabida, exagerada e mentirosa. 

Uma raiva que está ali, encobrindo um coração triste, sozinho. Disfarçando uma necessidade de amor mais profundo, de um encontro com Deus. Que vem quando a vida está cansativa e repetitiva, quando as energias estão exíguas, quando tudo parece sem sentido. 

Pai, eu também sou tomada por essa onda de cansaço e depressão. Hoje compreendo você. Acho que eu ficava tão magoada quanto a minha filha fica com essa minha reação tão descabida. Ela também não entende o porque de tudo isso, assim como eu também não entendia. 

Depois que passa me arrependo, mas já é tarde. Já deixei as minhas marcas em minha filha. E essas marcas acompanham a gente por muito tempo da vida.
Por muito tempo deixei que elas, as marcas, mágoas e decepções, se opusessem entre eu e você. Deixei que mascarassem esse amor intenso que eu sempre senti por você. 

Hoje, essas marcas estão pálidas e diluídas mas ainda reaparecem quando perco minha paciência. Só resta me perdoar.

Com amor, sua filha.

Cartas a meu Pai - 1




Querido Pai,

Um dia eu cheguei para o seu enterro.  E quando olhei seu rosto naquele caixão aberto me dei conta de quantas coisas tinha ainda para lhe falar. Quantas coisas não ditas, quantos sentimentos recolhidos e não manifestados. Senti sua falta imediatamente. E sinto até hoje. 

Até hoje parece que aquelas coisas que eu não lhe falei seguem presas na minha garganta. Você ficou doente, desesperado com a dor e o sofrimento, perplexo diante da morte, inconformado com o fim da vida. 

E eu não lhe disse nada, nenhuma palavra de conforto,  não lhe dei nenhum abraço de amor. Eu estava longe, muito ocupada com meus afazeres, com o dinheiro para ganhar, completamente absorta em meu cotidiano e não me dei conta do que estava acontecendo com você. 

Só naquele momento, Pai, quando já não havia mais volta, quando você já tinha superado todas as incertezas e partido para outra etapa de sua alma, pude perceber sua ausência e quanto você me faz falta. 

 E me pergunto, Pai, porque me deixo absorver nesse dia a dia tão ocupado,   sem perceber as coisas belas da vida? Seria belo ter estado junto à você naquela época; eu deveria ter ido, pegado o ônibus e deixado para trás todo o resto pois, afinal, naquele momento, você era o mais importante.  

Mas eu não tinha essa consciência. Não havia em mim a sabedoria de viver o amor e de saber manifestá-lo. Mas neste momento, Pai, vou fazê-lo. Sei que onde você estiver vai ouvir meu coração. 

Quero limpar essa amargura que me oprime. Que faz zunir os meus ouvidos e  me faz caminhar como um robô. Indiferente aos que estão à minha volta, alheia à vida que pulsa ao meu redor.

Por isso escrevo essas cartas para você, meu Pai.

Com amor, sua filha.