sábado, 8 de setembro de 2018

Cartas a meu Pai - 1




Querido Pai,

Um dia eu cheguei para o seu enterro.  E quando olhei seu rosto naquele caixão aberto me dei conta de quantas coisas tinha ainda para lhe falar. Quantas coisas não ditas, quantos sentimentos recolhidos e não manifestados. Senti sua falta imediatamente. E sinto até hoje. 

Até hoje parece que aquelas coisas que eu não lhe falei seguem presas na minha garganta. Você ficou doente, desesperado com a dor e o sofrimento, perplexo diante da morte, inconformado com o fim da vida. 

E eu não lhe disse nada, nenhuma palavra de conforto,  não lhe dei nenhum abraço de amor. Eu estava longe, muito ocupada com meus afazeres, com o dinheiro para ganhar, completamente absorta em meu cotidiano e não me dei conta do que estava acontecendo com você. 

Só naquele momento, Pai, quando já não havia mais volta, quando você já tinha superado todas as incertezas e partido para outra etapa de sua alma, pude perceber sua ausência e quanto você me faz falta. 

 E me pergunto, Pai, porque me deixo absorver nesse dia a dia tão ocupado,   sem perceber as coisas belas da vida? Seria belo ter estado junto à você naquela época; eu deveria ter ido, pegado o ônibus e deixado para trás todo o resto pois, afinal, naquele momento, você era o mais importante.  

Mas eu não tinha essa consciência. Não havia em mim a sabedoria de viver o amor e de saber manifestá-lo. Mas neste momento, Pai, vou fazê-lo. Sei que onde você estiver vai ouvir meu coração. 

Quero limpar essa amargura que me oprime. Que faz zunir os meus ouvidos e  me faz caminhar como um robô. Indiferente aos que estão à minha volta, alheia à vida que pulsa ao meu redor.

Por isso escrevo essas cartas para você, meu Pai.

Com amor, sua filha.


 

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