Querido Pai,
Um
dia eu cheguei para o seu enterro. E
quando olhei seu rosto naquele caixão aberto me dei conta de quantas coisas
tinha ainda para lhe falar. Quantas coisas não ditas, quantos sentimentos
recolhidos e não manifestados. Senti sua falta imediatamente. E sinto até hoje.
Até hoje parece que aquelas coisas que eu não lhe falei seguem presas na minha
garganta. Você ficou doente, desesperado com a dor e o sofrimento, perplexo
diante da morte, inconformado com o fim da vida.
E eu não lhe disse nada,
nenhuma palavra de conforto, não lhe dei
nenhum abraço de amor. Eu estava longe, muito ocupada com meus afazeres, com o
dinheiro para ganhar, completamente absorta em meu cotidiano e não me dei conta
do que estava acontecendo com você.
Só naquele momento, Pai, quando já não havia
mais volta, quando você já tinha superado todas as incertezas e partido
para outra etapa de sua alma, pude perceber sua ausência e quanto você me faz falta.
E me pergunto, Pai, porque me deixo absorver nesse dia a dia tão ocupado, sem perceber as coisas belas da vida? Seria belo ter estado junto à você
naquela época; eu deveria ter ido, pegado o ônibus e deixado para trás todo o
resto pois, afinal, naquele momento, você era o mais importante.
Mas eu não tinha essa consciência. Não havia em mim a sabedoria de viver o amor e de saber manifestá-lo. Mas neste momento, Pai, vou fazê-lo. Sei que onde você estiver vai ouvir meu coração.
Quero limpar essa amargura que me oprime. Que faz zunir os meus ouvidos e me
faz caminhar como um robô. Indiferente aos que estão à minha volta, alheia à
vida que pulsa ao meu redor.
Por isso escrevo essas cartas para você, meu Pai.
Com
amor, sua filha.
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