sábado, 8 de setembro de 2018

Crônicas de Amores Não Vividos - 1




Ele acabou de se tornar pai

Não faz nem quarenta horas e nasceu sua primeira filhota. Sentiu-se perdido e apavorado com o longo trabalho de parto, a menininha estava lá no canal e a mãe não conseguia empurrar. Com a voz trêmula  resolveu me pedir ajuda, em um telefonema  tarde da noite.

Claro, sim, posso sim... se acalma, confia! Eu confio nessa médica, é assim mesmo, de repente é bom você sair um pouco do quarto, deixa lá as mulheres resolverem essa situação sozinhas. Se ela não consegue fazer força...bem, deve estar cansada, mas força só durante as contrações... A neném está sendo escutada? Ah, então tudo bem, está tudo normal...confia.

E depois desse telefonema orei profundamente, pedindo para que esse parto tivesse um desfecho feliz. E grata, grata estou, pois no dia seguinte de manhã recebi a notícia, mãe e bebê passam bem

Você foi muito importante!

Nossa, me senti lisonjeada. Esse homem é especial. Há tempos não me deparava com um homem tão lindo. Não é só beleza física, mas essa também conta. Olhos esverdeados profundos, cabelos grisalhos, braços aconchegantes, pernas que dançam e levam uma dama muito bem. Um sotaque leve de recém chegado do interior paulista e lindas estórias para contar. Cria duas gatas, me ensinou sobre como cuidar de felinos. Toca sanfona (pode?) e canta como os pássaros. Melhor ainda são suas mãos na cozinha; patê de ricota de indescritível paladar, samozas indianas recheadas com creme de ervilha. Huuuummm!!!

Casadíssimo e muito fiel. Há um ano, em uma reunião de amigos, tomamos um vinho juntos. Conversávamos animadamente e eu me sentia livre, leve e solta, colocando opiniões, idéias... e o vinho estava subindo em minha cabeça, e eu estava cada vez mais encantada com o charme dele, seus olhos também brilhavam, e eu continuava a  relatar fatos, descrever como é viver no Planalto Central, tomar banhos de cachoeira em Alto Paraíso... De repente ele disse que eu  “ era meia maluquinha”.... e  a conversa acabou aí. Acho que ele percebeu meu encantamento e saiu fora...Mas tiveram outros momentos e um dia, inteiramente maluquinha, eu disse a ele que é um colírio para os olhos.

Bem, depois disso tudo, sua mulher ficou grávida e o foco mudou. Passei a olhar para ela, já que sou uma doula. Presenteei o casal com meus livros sobre gravidez e parto humanizado.Recolhi minha admiração e tesão pelo futuro papai. Mas no chá de bebê não perdi a oportunidade de dizer que se a herdeira puxasse por ele, seria linda! Nesse dia ele mal sorriu, percebi seu semblante cansado, embora tivesse cantado e tocado na festa. Estava com um leve ar de excesso de responsabilidade, pesando nas costas e talvez Brasília já não lhe trouxesse mais aqueles encantos de quando recém chegado. E sabe lá, de repente estivesse com o sexo atrasado, pois sua mulher estava com ameaça de parto prematuro. Mas tudo isso são apenas minhas viagens mentais, para justificar a total impossibilidade de ser algo mais que sua amiga doula.

            E ontem, depois que ele me relatou o restante do parto, perguntei a ele com quem que a neném se parecia e não deu outra. É a cara do pai... Então é lindíssima, respondi.

 Brasília, agosto de 2010

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