Ele acabou de se tornar pai
Não faz nem
quarenta horas e nasceu sua primeira filhota. Sentiu-se perdido e apavorado com
o longo trabalho de parto, a menininha estava lá no canal e a mãe não conseguia empurrar. Com a voz
trêmula resolveu me pedir ajuda, em um
telefonema tarde da noite.
Claro, sim, posso sim... se acalma, confia!
Eu confio nessa médica, é assim mesmo, de repente é bom você sair um pouco do
quarto, deixa lá as mulheres resolverem essa situação sozinhas. Se ela não
consegue fazer força...bem, deve estar cansada, mas força só durante as
contrações... A neném está sendo escutada? Ah, então tudo bem, está tudo
normal...confia.
E depois desse
telefonema orei profundamente, pedindo para que esse parto tivesse um desfecho
feliz. E grata, grata estou, pois no dia seguinte de manhã recebi a
notícia, mãe e bebê passam bem.
Você foi
muito importante!
Nossa, me
senti lisonjeada. Esse homem é especial. Há tempos não me deparava com um homem
tão lindo. Não é só beleza física, mas essa também conta. Olhos esverdeados
profundos, cabelos grisalhos, braços aconchegantes, pernas que
dançam e levam uma dama muito bem. Um sotaque leve de recém chegado do interior
paulista e lindas estórias para contar. Cria duas gatas, me ensinou sobre como cuidar
de felinos. Toca sanfona (pode?) e canta como os pássaros. Melhor ainda são suas
mãos na cozinha; patê de ricota de indescritível paladar, samozas indianas recheadas com creme de ervilha. Huuuummm!!!
Casadíssimo e
muito fiel. Há um ano, em uma reunião de amigos, tomamos um vinho juntos.
Conversávamos animadamente e eu me sentia livre, leve e solta, colocando
opiniões, idéias... e o vinho estava subindo em minha cabeça, e eu estava cada
vez mais encantada com o charme dele, seus olhos também brilhavam, e eu
continuava a relatar fatos, descrever
como é viver no Planalto Central, tomar banhos de cachoeira em Alto Paraíso...
De repente ele disse que eu
“ era meia maluquinha”.... e a
conversa acabou aí. Acho que ele percebeu meu encantamento e saiu fora...Mas
tiveram outros momentos e um dia, inteiramente maluquinha, eu disse a ele que é um colírio para os olhos.
Bem, depois
disso tudo, sua mulher ficou grávida e o foco mudou. Passei a olhar para ela,
já que sou uma doula. Presenteei o casal com meus livros sobre gravidez e parto
humanizado.Recolhi minha admiração e
tesão pelo futuro papai. Mas no chá de bebê não perdi a oportunidade de dizer
que se a herdeira puxasse por ele, seria linda! Nesse dia ele mal sorriu, percebi
seu semblante cansado, embora tivesse cantado e tocado na festa. Estava com um leve
ar de excesso de responsabilidade, pesando nas costas e talvez Brasília já não
lhe trouxesse mais aqueles encantos de quando recém chegado. E sabe lá, de
repente estivesse com o sexo atrasado, pois sua mulher estava com ameaça de
parto prematuro. Mas tudo isso são apenas minhas viagens mentais, para
justificar a total impossibilidade de ser algo mais que sua amiga doula.
E
ontem, depois que ele me relatou o restante do parto, perguntei a ele com quem
que a neném se parecia e não deu outra. É
a cara do pai... Então é lindíssima, respondi.
Brasília, agosto de 2010
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