QUASE UM MENINO
Quase um menino, é o que aparenta ser. Mas na realidade, já
é homem feito, pai de três filhos. Ainda não chegou aos quarenta. Cabelo
comprido, bonito e fuma sem parar, um cigarro após o outro. O que será que ele
precisa acalmar, que fome é essa que vem de dentro que cria tanta ansiedade?
Perguntas sem respostas. O que sei é que se separou recentemente da mulher, uma
ligação longa, desde os tempos da adolescência. Mágoas de não ter sido bem
cuidado enquanto fazia sua tese de doutorado, trabalhando horas a fio sem comer,
nem siquer um sanduíche! E olha que o rapaz tem um apetite daqueles; nos
encontramos em Santa Fé, Argentina, em um Congresso e pude presenciar seus almoços,
entremeado por baforadas de fumaça.
Muito lindo ele, impossível não despertar amor, amor
confundido com maternal. Mal sabe ele que só lhe quereria como filho se fosse
com complexo de Édipo! Mas ele insiste nisso, afinal tenho um filho com a idade
dele e isso o conspira a me ver como mãe!
Temos muitas afinidades, como diz ele, somos almas gêmeas
espirituais. Gostamos do Cerrado, temos valores parecidos, nos empolgamos com a
simplicidade das coisas, gostamos de caminhar, de preferência entre gente
bonita, observando bocas e bundas, pernas, curvas, de homens e mulheres, além
de seus bem cuidados cachorros, como aconteceu em Santa Fé.
Torcemos pelo crescimento de meninos e meninas que vivem no
campo, contribuímos com a educação dos calungas, prestigiamos sua cultura. Ele
leva a comunidade a plantar nos
assentamentos, sob sua orientação; eu conduzo oficinas de culinária, utilizando
e valorizando o que foi plantado. Uma complementação de afazeres, em prol da
sustentabilidade!
Sustentabilidade, que belas aulas sobre esse tema foram
dadas por ele. Mas, além disso, me povoa
o coração e a mente com fantasias. Talvez me atraia sua timidez, seu
jeito doce, seu olhar. Olhos puxados, boca carnuda, parece um menino. Mas sei
que por dentro tem um homem. E que homem! Delicado, mas firme. Suave e forte,
calmo e fogoso, malicioso e ingênuo. Capaz de dormir com as putas, mas sem
encostar em nenhuma delas. Conversar com todas as pessoas na rua e cobiçar as
mulheres nas calçadas. Rir muito e chorar, também. Se alegrar e sofrer, se
buscar e se encontrar, num exercício permanente de vida.
Oi menino, gostaria de apertar você em meus braços, dar um
cheiro em seu pescoço, debaixo desse cabelão. E
sentir minhas mãos deslizando pelo seu peito, seu coração, sentindo seus
pelos, sua pele, lhe deixando arrepiado,com vontade de me querer. E se você me
quisesse, nossa quanta coisa gostosa poderíamos fazer juntos! Além de amor, massagens
com óleo aromático. Além de mais amor, tomar caldo de mandioca, suco de
mangaba, café, sorvete de doce de leite.
Creio que me sentiria uma mulher no auge de
minha sensualidade, capaz de satisfazer todos os seus desejos, com muito amor,
sempre.
Brasília, 2011
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