sábado, 8 de setembro de 2018

Crônicas de Amores Não Vividos - 2




QUASE UM MENINO

Quase um menino, é o que aparenta ser. Mas na realidade, já é homem feito, pai de três filhos. Ainda não chegou aos quarenta. Cabelo comprido, bonito e fuma sem parar, um cigarro após o outro. O que será que ele precisa acalmar, que fome é essa que vem de dentro que cria tanta ansiedade?

Perguntas sem respostas. O que sei  é que se separou recentemente da mulher, uma ligação longa, desde os tempos da adolescência. Mágoas de não ter sido bem cuidado enquanto fazia sua tese de doutorado, trabalhando horas a fio sem comer, nem siquer um sanduíche! E olha que o rapaz tem um apetite daqueles; nos encontramos em Santa Fé, Argentina,  em um Congresso e pude presenciar seus almoços, entremeado por baforadas de fumaça.

Muito lindo ele, impossível não despertar amor, amor confundido com maternal. Mal sabe ele que só lhe quereria como filho se fosse com complexo de Édipo! Mas ele insiste nisso, afinal tenho um filho com a idade dele e isso o conspira a me ver como mãe!

Temos muitas afinidades, como diz ele, somos almas gêmeas espirituais. Gostamos do Cerrado, temos valores parecidos, nos empolgamos com a simplicidade das coisas, gostamos de caminhar, de preferência entre gente bonita, observando bocas e bundas, pernas, curvas, de homens e mulheres, além de seus bem cuidados cachorros, como aconteceu em Santa Fé.

Torcemos pelo crescimento de meninos e meninas que vivem no campo, contribuímos com a educação dos calungas, prestigiamos sua cultura. Ele leva a comunidade a  plantar nos assentamentos, sob sua orientação; eu conduzo oficinas de culinária, utilizando e valorizando o que foi plantado. Uma complementação de afazeres, em prol da sustentabilidade!

Sustentabilidade, que belas aulas sobre esse tema foram dadas por ele. Mas, além disso, me povoa  o coração e a mente com fantasias. Talvez me atraia sua timidez, seu jeito doce, seu olhar. Olhos puxados, boca carnuda, parece um menino. Mas sei que por dentro tem um homem. E que homem! Delicado, mas firme. Suave e forte, calmo e fogoso, malicioso e ingênuo. Capaz de dormir com as putas, mas sem encostar em nenhuma delas. Conversar com todas as pessoas na rua e cobiçar as mulheres nas calçadas. Rir muito e chorar, também. Se alegrar e sofrer, se buscar e se encontrar, num exercício permanente de vida.

Oi menino, gostaria de apertar você em meus braços, dar um cheiro em seu pescoço, debaixo desse cabelão. E  sentir minhas mãos deslizando pelo seu peito, seu coração, sentindo seus pelos, sua pele, lhe deixando arrepiado,com vontade de me querer. E se você me quisesse, nossa quanta coisa gostosa poderíamos fazer juntos! Além de amor, massagens com óleo aromático. Além de mais amor, tomar caldo de mandioca, suco de mangaba, café, sorvete de doce de leite.  

Creio que me sentiria uma mulher no auge de minha sensualidade, capaz de satisfazer todos os seus desejos, com muito amor, sempre.

Brasília, 2011

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