Querido Pai,
"Estou me sentindo mal". Nos últimos tempos, essa tem
sido minha queixa básica.
Puxa pai, me lembro do seu processo do câncer e uma vez
quando me perguntou, inconformado, porque tinha que sentir tanta
dor, sofrer tanto, eu não respondi. Não sabia o que dizer e, principalmente, não tinha a menor noção
do que isso significava.
Só agora estou tendo um vislumbre do que é estar doente. Ficar dependente das pessoas, não conseguir caminhar sozinha, não trabalhar como antes, sentir insegurança e medo, muito medo. Medo de
nunca mais ser o que eu fui.
Me pergunto por que. E a resposta que vem é que estou muito apegada a tudo, até a meu jeito de ser. Essa deve ser a razão para sentir tanta tontura.
Sei que vivi um processo difícil
nos últimos anos. Sair de Alto Paraíso, até hoje sinto uma tristeza por isso.
Simplesmente porque gostaria de olhar no horizonte e ver o céu rodeado de
montanhas. Saber que em cinco minutos estaria debaixo daquela cachoeira, vendo
os beija flores e os tucanos, às vezes um par de araras riscando o céu.
Eu sei Pai, tudo muda. Eu quero sarar dessa tonteira. Nos últimos
dias tem me dado uma vontade de mudar tudo. Tenho observado os ipês floridos de
Brasília com muito amor e pedido que a vitalidade e o rosa intenso daquelas
flores que formam um lindo tapete no chão, invadam a minha
vida.
Não é possível que eu continue tonta, negando o presente, sem
querer olhar o passado, sem saber para onde ir. Sei que essa é a causa básica
desta labirintite que tem me atormentado tanto.
Pai, eu esqueci aquele homem, eu quero outro homem, com certeza o
calor de noites de amor farão me sentir melhor. Puxa, Pai, eu só tenho 52
anos.
Quando você ficou doente também era moço, poderia ter vivido muito
mais, estava na casa dos setenta anos. Quero viver pelo menos oitenta, ser
assim como a mamãe.
Ela me falou que tem alguma coisa espiritual me
atrapalhando, que eu posso ser médium, por isso tenho esse zumbido no
ouvido. Sabe, eu até acredito, mas não gosto daquelas sessões de desobsessão no
centro espírita. Acho que não preciso daquilo.
Nem daqueles enormes trabalhos
do Santo Daime, que me deixam absolutamente exausta. Eu fui lá na semana passada para constatar, mais uma vez, que aquele não é o meu caminho.
Meu Deus está
dentro. Confio no meu anjo da guarda, ele me protege muito bem. Quero me desapegar de modelos, caminhos e jeitos de ser antigos.
Sim, com certeza é
isso.
Com amor, sua filha.
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