sábado, 8 de setembro de 2018

Cartas a meu Pai - 4




Querido Pai,

"Estou me sentindo mal". Nos últimos tempos, essa tem sido minha queixa básica. 

Puxa pai, me lembro do seu processo do câncer e uma vez quando me perguntou, inconformado, porque tinha que sentir tanta dor, sofrer tanto, eu não respondi. Não sabia o que dizer e, principalmente, não tinha a menor noção do que isso significava. 

Só agora estou tendo um vislumbre do que é estar doente. Ficar dependente das pessoas, não conseguir caminhar sozinha, não trabalhar como antes, sentir insegurança e medo, muito medo. Medo de nunca mais ser o que eu fui. 

Me pergunto por que. E a resposta que vem é que estou muito apegada a tudo, até a meu jeito de ser. Essa deve ser a razão para sentir tanta tontura. 

Sei que vivi um processo difícil nos últimos anos. Sair de Alto Paraíso, até hoje sinto uma tristeza por isso. Simplesmente porque gostaria de olhar no horizonte e ver o céu rodeado de montanhas. Saber que em cinco minutos estaria debaixo daquela cachoeira, vendo os beija flores e os tucanos, às vezes um par de araras riscando o céu. 

Eu sei Pai, tudo muda. Eu quero sarar dessa tonteira. Nos últimos dias tem me dado uma vontade de mudar tudo. Tenho observado os ipês floridos de Brasília com muito amor e pedido que a vitalidade e o rosa intenso daquelas flores que formam um lindo tapete no chão, invadam a minha vida. 

Não é possível que eu continue tonta, negando o presente, sem querer olhar o passado, sem saber para onde ir. Sei que essa é a causa básica desta labirintite que tem me atormentado tanto. 

Pai, eu esqueci aquele homem, eu quero outro homem, com certeza o calor de noites de amor farão me sentir melhor. Puxa, Pai, eu só tenho 52 anos. 

Quando você ficou doente também era moço, poderia ter vivido muito mais, estava na casa dos setenta anos. Quero viver pelo menos oitenta, ser assim como a mamãe. 

Ela me falou que tem alguma coisa espiritual me atrapalhando, que eu posso ser médium, por isso tenho esse zumbido no ouvido. Sabe, eu até acredito,  mas não gosto daquelas sessões de desobsessão no centro espírita. Acho que não preciso daquilo. 

Nem daqueles enormes trabalhos do Santo Daime, que me deixam absolutamente exausta. Eu fui lá na semana passada para constatar, mais uma vez, que aquele não é o meu caminho.

Meu Deus está dentro. Confio no meu anjo da guarda, ele me protege muito bem.  Quero me desapegar de modelos, caminhos e jeitos de ser antigos. 

Sim, com certeza é isso.

Com amor, sua filha.




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