sábado, 8 de setembro de 2018

Cartas a meu Pai - 6




Querido Pai,

Fiquei anos sem dar continuidade à essas cartas, elas passavam pela minha cabeça e iam embora, como o vento. Eu tinha vários motivos para isso, principalmente, nos últimos cinco anos, o doutorado que, finalmente, consegui concluir. 

Ele foi dedicado a você, meu Pai. Eu sempre soube que você queria uma filha doutora. Acho que essa foi a força que me motivou a continuar, pois a cada vez que eu questionava esse doutorado aos 58 anos de idade, me vinha essa lembrança. E muitas vezes, em  momentos de incerteza,  sentia sua presença me dando força e coragem.

Hoje estou aqui na casa da mamãe; ela esteve doente, pensei que fosse morrer. Prometi a mim mesma que quando ela precisasse de mim, nesse momento da vida, eu não estaria ausente como estive com você. 

Já vim pro aniversário dela em novembro, quando completou 88 anos. E agora, dezembro, passar o Natal. Disse aos meus irmãos que iria ficar até meados de janeiro, mas ela está bem, tem muita vitalidade, acho que vai viver até os 95, pelo menos. 

Ela estranha minha presença constante e eu, começo a contar os dias. Até que, ontem, quando decidi marcar minha passagem de volta,  ficamos mais calmas e relaxadas. Vou ficar até dia 29, depois vou curtir o réveillon com minha filha e amigos.

Minha mãe ainda pensa que estou abrindo mão da presença de meus filhos para estar com ela e isso a incomoda. Ela esqueceu que seus netinhos de antes viraram adultos. Tem só uma adolescente que está louca para viver suas experiências longe dos pais.

Cada Natal nessa casa me traz sua lembrança com muita força. Sinto sua falta. Falta de sua alegria, das piadinhas após o seu uisquinho sagrado de cada dia. Esse drink diário me incomodava e também a minha mãe. Mas hoje tudo isso é tão irrelevante!

 O que sobrou foi seu amor, o nosso amor. Isso será eterno. 

 De quem te ama muito, sua filha.



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