sábado, 8 de setembro de 2018

Cartas a meu Pai - 2




Querido Pai,

Hoje me irritei com minha filha, a sua neta. Sabe Pai, cada vez que perco a paciência com ela me sinto aquela menina, sua filha, que estava recebendo uma bronca. Parece que até as palavras que eu uso são as mesmas que você dizia.

E com certeza são. As palavras eu sigo repetindo e quanto mais brava eu fico, mais inconscientes elas se tornam. Saem automaticamente, como um turbilhão. E expressam a dor que fica por trás de uma raiva enorme, descabida, exagerada e mentirosa. 

Uma raiva que está ali, encobrindo um coração triste, sozinho. Disfarçando uma necessidade de amor mais profundo, de um encontro com Deus. Que vem quando a vida está cansativa e repetitiva, quando as energias estão exíguas, quando tudo parece sem sentido. 

Pai, eu também sou tomada por essa onda de cansaço e depressão. Hoje compreendo você. Acho que eu ficava tão magoada quanto a minha filha fica com essa minha reação tão descabida. Ela também não entende o porque de tudo isso, assim como eu também não entendia. 

Depois que passa me arrependo, mas já é tarde. Já deixei as minhas marcas em minha filha. E essas marcas acompanham a gente por muito tempo da vida.
Por muito tempo deixei que elas, as marcas, mágoas e decepções, se opusessem entre eu e você. Deixei que mascarassem esse amor intenso que eu sempre senti por você. 

Hoje, essas marcas estão pálidas e diluídas mas ainda reaparecem quando perco minha paciência. Só resta me perdoar.

Com amor, sua filha.

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