Querido Pai,
Hoje me irritei com minha filha, a sua neta. Sabe Pai, cada vez
que perco a paciência com ela me sinto aquela menina, sua filha, que
estava recebendo uma bronca. Parece que até as palavras que eu uso são as
mesmas que você dizia.
E com certeza são. As palavras eu sigo repetindo e quanto mais
brava eu fico, mais inconscientes elas se tornam. Saem automaticamente, como
um turbilhão. E expressam a dor que fica por trás de uma raiva enorme, descabida,
exagerada e mentirosa.
Uma raiva que está ali, encobrindo um coração triste, sozinho.
Disfarçando uma necessidade de amor mais profundo, de um encontro com Deus. Que
vem quando a vida está cansativa e repetitiva, quando as energias estão
exíguas, quando tudo parece sem sentido.
Pai, eu também sou tomada por essa onda de cansaço e depressão.
Hoje compreendo você. Acho que eu ficava tão magoada quanto a minha filha fica com essa minha reação tão descabida. Ela também não entende o porque de tudo
isso, assim como eu também não entendia.
Depois que passa me arrependo, mas já é tarde. Já deixei as
minhas marcas em minha filha. E essas marcas acompanham a gente por muito tempo
da vida.
Por muito tempo deixei que elas, as marcas, mágoas e decepções, se
opusessem entre eu e você. Deixei que mascarassem esse amor intenso que eu
sempre senti por você.
Hoje, essas marcas estão pálidas e diluídas mas ainda reaparecem
quando perco minha paciência. Só resta me perdoar.
Com amor, sua filha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário