Sou
uma mulher nascida na década de 1950. Pertenço a uma geração que realizou
profundas transformações na Sociedade. Feminismo, pílula anticoncepcional,
revolução sexual, aspectos responsáveis por incríveis mudanças de comportamento
no final do século XX.
Lembro-me
dos valores rígidos do meu pai em minha infância e adolescência. Da necessidade
de fazer negociações com minha mãe para conseguir ir a uma festinha no fim de
semana. Era ela que intermediava as conversas paternas para obtermos a devida
autorização.
Ao
chegar à Universidade, o ambiente familiar ainda era o mesmo. Só que eu tinha
crescido e com muita imaginação, planejava estratégias fantásticas para não
dormir em casa. Claro que tinha parceiras, amigas que também precisavam
inventar estórias para visitar a república onde moravam nossos namorados. E
para nossas mães, estávamos uma nas casas das outras, estudando. Minha mãe
nunca checou se era verdade ou não e eu, sinceramente, não tenho nenhum
remorso.
Aos dezenove anos tomava pílula escondida. Fiz
minha primeira consulta ginecológica com a médica da Universidade, também sem
minha mãe saber. Essa ginecologista me deu as principais orientações para o
início de minha vida sexual. Inesquecível. Sou grata a ela até hoje.
E
assim foi e muita água já passou debaixo da ponte. Atualmente tudo mudou. Meus
filhos viveram uma realidade bem diferente. Traziam os namorados para casa,
fumavam e bebiam na frente dos pais. Um clima de confiança e liberdade que
nunca tive o privilégio de conhecer.
Meus
pais, aos cinquenta anos, se sentiam velhos. Lembro que minha mãe, uma vez, se
recusou a vestir o maiô para ir à praia por sentir vergonha do próprio corpo.
Ela tinha uma autoestima muito baixa. Lembro que a questionei sobre isso e no
auge dos meus 34 anos, na época, tinha uma influência sobre ela, que acabou
refletindo e vestindo o maiô.
Mas
as queixas dos dois sobre a velhice permaneceu por anos a fio. Não havia um
preparo para viver essa fase. E a verdade é que, em pouco tempo, a média de
vida aumentou rápido devido à melhoria de vida, dos medicamentos, da informação
sobre saúde entre outros aspectos. E foi uma surpresa para eles terem que viver
tão mais, considerando que seus antepassados se foram aos cinquenta e poucos
anos. A maioria deles, pelo menos. Ou muito mais cedo. Minha avó materna morreu
no parto e minha avó materna, de tuberculose. Mulheres jovens que deixaram
órfãos seus filhos em tenra idade; meu pai aos quatro anos, minha mãe aos três.
Vida difícil, de carência afetiva e material.
Ao
se aposentarem, meus pais desfrutavam de um padrão de vida confortável. Tinham
casa própria e carro. Moravam em uma tranquila cidade do interior. Mas a
insatisfação com a velhice permanecia. Eles não sabiam lidar com isso, era um
desconhecido que incomodava. A morte dos amigos e parentes os assustavam, as
dores pelo corpo também. E o tempo livre contribuía para aumentar esses
fantasmas que os rodeavam.
De
alguma forma absorvi essa energia e frequentemente me vejo pensando como eles.
Com o mesmo tipo de preocupação e descontentamento. É um padrão que se repete e
que se não estivermos atentos, acabaremos repetindo, sem dúvida nenhuma.
Lembro-me de todas as mudanças realizadas pela
minha geração nos idos de 1970 e 1980. E
reflito que agora, cabe a nós realizarmos mais uma profunda mudança. Na forma de envelhecer.
Não sei como, temos que inventar, reinventar,
descobrir. E começo pelo que não quero em minha vida. Sem longas horas em
frente à TV. Sem drinks na hora do almoço, diariamente, para anestesiar. Sem
uma solidão a dois em uma casa grande, com poucos vizinhos e quase nenhum
amigo. Sem a nostalgia do passado e de que meu tempo já passou. Sem a espera
pela visita dos filhos e netos. Sem uma quantidade enorme de cães e gatos para
cuidar, dar e receber carinho.
Não
é uma crítica, esse foi o caminho possível para os meus pais. Mas coloco
novamente minha imaginação para funcionar e visualizo minha velhice de outro jeito. Com muitos amigos
ao redor, morando perto, cada um em sua casinha. Em um mesmo terreno, com áreas
de lazer comuns, para nos exercitarmos e assistirmos filmes. E para meditarmos
e dançarmos juntos. Uma horta e cozinha
comunitárias. Com rodizio para cozinhar. Acender o fogão à lenha, tocar tambor,
ouvir música, ficar em volta da fogueira e fumar um pito. Com a presença de pessoas jovens
também, para cuidarem de nós e fazerem o serviço pesado.
Precisamos
mudar o paradigma atual do envelhecimento e mudar os condicionamentos mentais.
Eles são fortes e estão aí, sempre, pairando no inconsciente coletivo. Eu
necessito, diariamente, ter consciência para revertê-los. Sem deixar de aceitar
que os anos passam, a pele enruga e torna-se flácida, os cabelos embranquecem e
caem. Isso não significa deterioração. É
apenas uma condição natural de ser humano.
Sim,
mas vou conseguir. Assim como consegui driblar a autoridade do meu pai quando
era adolescente e também mais tarde, na casa dos vinte anos. Conseguiremos
juntos, amigos e amigas. Teremos, sim, uma velhice empoderada.
Alto Paraíso de Goiás, 17 de janeiro de 2019.