terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Será que estou velha?






Esses dias reencontrei um amigo de algum tempo, que nem mora aqui, veio a passeio. Foi bom vê-lo na noite, em uma festa de início de ano, onde estavam presentes muitas pessoas queridas. Foi um encontro bom, caloroso e afetuoso. Em meia hora já tínhamos atualizado vários assuntos. Agora ele estava separado, de licença do trabalho, dando um tempo para si e descansando nesse local lindo.
Senti-me rapidamente atraída por ele, como já tinha acontecido outras vezes, mas como era casado, nunca houve nada entre nós. Dessa vez meu coração vislumbrou uma possibilidade. Sim, absolutamente unilateral. Uma criação de minha mente, embalada por anseios antigos de amar e ser amada.
Dois dias depois combinamos de ele vir na minha casa. Tomamos café, conversamos muito de forma fluída, um assunto depois do outro. Descobrimos que trilhamos diversos caminhos parecidos, do ponto de vista espiritual. Mestres, xamanismo, santo daime, meditação, constelação familiar, terapias e outros. Isso me agrada muito quando conheço alguém, pois significa que há uma busca pelo autoconhecimento. O moço me encantou ainda mais, pois nunca tínhamos tido oportunidade de nos conhecermos melhor.
Ao anoitecer, ele iria encontrar uns amigos em um evento e simplesmente me convidei para seguir junto. Fomos a pé, o por do sol estava esplêndido, tingindo o céu de vários tons de rosa e laranja. Os pássaros cantavam, araras e tucanos voavam se despedindo de mais um dia. É simplesmente delicioso caminhar por ruas quase desertas, repletas de vegetação. Passar pela casa de uma amiga e entrar e conversar um pouco. Encontrar outra na rua e bater outro papo. Subir e descer, fazer curvas, andar no plano, reconhecendo cada recanto desse lugar que eu amo.
Uma hora e meia depois chegamos ao tal evento. Uma fogueira ardia no centro de uma roda, com várias pessoas, que ouviam os acordes de um  violão. Um refletor projetava mil luzinhas coloridas em uma mangueira enorme, que contrastava com a noite estrelada e linda. Na lanchonete ao lado, um cheiro e sabor delicioso de pão de beijo recheado com cogumelo ou pequi, a escolher. Preferi a primeira opção, ele a outra.
Já quase dez horas da noite, resolvi voltar pra casa. Estava receosa de ir andando sozinha e pensava em conseguir uma carona, ou até ligar pra minha filha para vir me buscar. Rapidamente ele se ofereceu pra me acompanhar. Como sou uma mulher solteira e desacompanhada, acostumada a tomar as próprias decisões, resolver meus problemas individualmente, me espantei com sua delicadeza.  Tomei consciência de como estou desacostumada a receber esse tipo de cuidado ou mesmo de ser protegida por um homem. São muitos anos sozinha, sem um namoro ou um casamento.
Mais uma vez minha mente voou longe. Nossa que delícia estar acompanhada, ter alguém ao meu lado, para trocar ideias, acompanhar em uma caminhada pela noite ou simplesmente estar ali, do meu lado. De repente percebi como ainda tenho esse desejo enraizado dentro de mim. Às vezes sinto que os amigos são suficientes; os netos e filhos cumprem esse papel. Mas não, que equívoco. Nada como ser complementada pela força do masculino, afinal sou uma mulher que aprecia essa energia.
De volta para casa, conversávamos sobre o calendário maia, sua descoberta mais recente que, pelo visto, exercia um forte encantamento nesse rapaz. Há vinte anos compartilhei desse calendário, participei de eventos, comemorei dias fora do tempo e até hoje lembro que meu kin é noite cristal azul. Isso tem vários significados, mas que não vem ao caso aqui. Atualmente existe um aplicativo de celular que calcula, a partir da data de nascimento, a qual kin, uma espécie de signo, se pertence. E apesar de já ter dito a ele que o meu kin, repito, é noite cristal azul, ele queria colocar o dia em que eu nasci no seu celular para ver se era isso mesmo.
E aí aconteceu o desencanto. Ele ficou incrédulo! O que, 1950? Sim, eu disse, está me achando velha? Não, você está ótima! Ele respondeu. Mas eu senti a energia, a decepção, sim, essa mulher tem quase setenta anos! Não parece, mas essa é a realidade.  Mais tarde, depois que ele foi embora, me questionei se isso era coisa da minha cabeça, se eu estava projetando algo de dentro de mim, em relação à idade, ao envelhecer. Tenho trabalhado essa questão internamente, pois não é fácil vencer os condicionamentos, os preconceitos, os limites existentes, principalmente para a mulher, de amar um homem mais novo, nessa altura da vida. E para confirmar, ele sumiu, não apareceu mais. Foi apenas uma visita e um devaneio de minha parte.
Tive um choque de realidade. Minha alma é de uma moça de trinta anos, com os mesmos anseios, os mesmos desejos de ser feliz no amor, às vezes até com a ilusão de encontrar o príncipe encantado. Mas o príncipe quer uma princesa, de pele jovem e macia, sem as marcas do tempo.  E me dei conta de quão madura estou, tão madura que já não satisfaz o apetite de ninguém.  Como aquela fruta que já passou do tempo e pode apenas servir de semente. Isso não é pouco, eu sei, ser semente. Ou virar adubo. Ou ser simplesmente jogada no lixo.
 Mas e a mulher que está aqui dentro? O que eu faço com ela? Como eu lido com esse coração que anseia por amor? Será que não tenho mais esse direito porque tenho 68 anos? Meu tempo acabou, é isso mesmo?
Não sei responder essas perguntas. Ou as respostas são difíceis de engolir.  No momento sinto apenas um vácuo dentro de mim. Olho para dentro, me recolho, respiro fundo. Medito nesse desapontamento. 
Não há nada a ser feito, a não ser aceitar a vida como ela é. E ainda agradecer por estar e me sentir viva. Por ainda querer amar, por acreditar que isso é possível. E continuar, pois essa alma jovem é que me leva para frente, me engana e  me faz acreditar que posso ser a feliz namorada de um homem mais jovem e de olhos azuis.

 Alto Paraíso de Goiás,  8 de janeiro de 2019.

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