Fui uma
criança do tipo mais sedentária, devido à questão dos meus pés serem voltados
para dentro, o que foi enfatizado por meus pais, que se preocupavam muito com
isso. Ao invés de estimularem a prática do exercício físico, me levaram
justamente ao oposto. “A Lívia é mole”, diziam meus irmãos e primos. Acreditei
nessa mentira por muito tempo, mas ao chegar na adolescência, houve uma mudança.
A bota ortopédica fez efeito! Eu não concordo, mas para o meus pais sim, nem
que tenha sido um efeito psicológico.
Eu gostava
muito de pular amarelinha. Era uma brincadeira fácil e que não me constrangia,
como jogar queimada, por exemplo. Na escola, eu fugia dos jogos com bolas e
adorava quando a aula de educação física era para praticar exercícios. E isso
trago até hoje; gosto muito da prática de ginástica, yôga e alongamento.
Outra
atividade que me atraía era ficar em meu quarto, recortando gravuras de
revistas. Adorava fazer colagens, separar paisagens bonitas e colar em uma
cartolina. Ou mesmo colecionar essas gravuras; guardava tudo em uma caixa.
Minha tia Dinah sempre me presenteava com revistas velhas, para eu recortar.
Dizia que eu era parecia “uma ratazana”.
As
brincadeiras com bonecas também eram minhas preferidas. Gostava de cuidar
delas, dar mamadeira, trocar roupinhas. Era a atividade predileta de minha irmã
e eu. Tínhamos uns bebês grandes, de plástico e cuidávamos deles até a
exaustão. Lembro de um dia, em que nos sentimos verdadeiramente cansadas daqueles
cuidados realistas e os abandonamos, por um tempo. Tínhamos também dois ursos
de pelúcia, o meu amarelo e o dela marrom, nossos outros filhos. Nunca me
esqueço do dia que meu pai foi me buscar na escola, carregando aquele urso. Eu
completei oito anos naquele dia. Fiquei muito feliz com o presente.
A escrita sempre me fascinou. Escrevia poesia,
cartas para o meus amigos correspondentes, inventava estórias. Gostava de ler
para minha mãe que duvidava da minha habilidade literária. “Foi você que
escreveu isso, Lívia?” costumava comentar. Mas isso nunca me intimidou, recebia
como um elogio e até como incentivo.
Uma época morávamos em um sítio, onde
tinha um laguinho, muito bonito. Eu ia para lá com meu caderno, para escrever poesias.
Lembro de um verso assim “à beira do lago escrevo canção e poesia, à beira do
lago é a minha alegria...” Era um
momento íntimo, onde eu imaginava minha vida, fantasiava, ficava sozinha.
Sempre gostei desse espaço de solitude.
Nesse sítio
também tinha uma mesa de pingue pongue; fazíamos competições com os primos;
lembro que eu era boa nisso, pois jogava muito bem. Sempre fui competitiva,
pelo fato de ser a filha mais velha, acredito. Uma forma de chamar atenção. Tive
uma relação difícil com meu irmão, pois ambos competíamos muito. O fato de meu
pai esperar por um filho homem, na época de meu nascimento, trouxe um
sentimento de rejeição que eu compensava mostrando a ele que eu poderia ser tão
boa quanto um homem! Só tomei consciência desse fato mais tarde, em uma
constelação familiar, que me possibilitou a melhora do relacionamento com o meu
irmão, já na maturidade.
Depois que o
meu pai vendeu o sítio e comprou uma casa de praia, em Caraguatatuba, jogávamos
baralho, nos dias de chuva. Aprendi cedo a jogar buraco; jogava com meus irmãos
e primos, durante as tardes e participava também das seções noturnas, com meus
pais. Meus pais gostavam de jogar um com o outro, mas às vezes abriam a cartada
para os filhos e sobrinhos. Eu gostava de contar os pontos da partida, anotar
em um papel e dar o resultado. Reflexo da minha competitividade, mais uma vez.
A música
sempre me atraiu. Com aquele medo de que eu me tornasse uma artista, minha mãe
nunca me deixou aprender a dançar ou tocar um instrumento. Eu queria aprender
sanfona. Hoje eu acho que eles não tinham poder aquisitivo para bancar outra
atividade extra curricular, pois o colégio onde estudávamos, já era bem pesado
para eles, financeiramente. Mas ela enfatizava constantemente esse temor; para
eles, ser cantora, dançarina ou atriz eram sinônimos de prostituta.
Meu pai
apreciava ouvir a Inesita Barroso e a Ângela Maria, na vitrola lá de casa. Eu
ouvia com ele e acompanhava, dançando e cantando. Os rádios de pilha, bem
pequenos, eram a novidade do momento e meu pai me deu um, o que me deixou muito
feliz e permitiu que eu ouvisse os cantores populares da época. Ele se orgulhava de mim, por gostar de
música.
Minha mãe
era fã dos livros espíritas e investiu em várias coleções de livros infanto
juvenis para nós; lia estórias e nos incentivava a ler, aspecto que agradeço
muito, pois adquirimos esse maravilhoso hábito. Ler também foi um momento
prazeroso de minha vida familiar na infância.
22 de junho
de 2020.
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