Meu pai,
nascido em 1924 e criado “como homem”, trouxe para a sua família o machismo e
autoridade inquestionáveis. E transmitiu muito bem esses conceitos retrógrados,
principalmente para os filhos, pois minha mãe sempre foi uma mulher dona de
suas opiniões, que não se submetia a ele e conhecia muito bem as estratégias
para se manter firme em suas decisões e convencer meu pai delas.
Nos
primeiros anos da infância, a autoridade desse casal sobre os filhos era diária
e permanente. Não podíamos fazer muitas coisas como brincar na rua ou dormir na
casa dos amiguinhos, inexistentes. Mas eles nunca foram de nos castigar
fisicamente, com força. Meu pai costumava deixar um cinto de couro pendurado atrás
da porta e quando estávamos mais rebeldes, ele nos ameaçava, mas nunca nos
bateu. Apenas o seu olhar era suficiente para nos colocar no devido lugar.
Já mamãe, dependendo
do dia, nos dava umas palmadas, quando estava irritadiça. Ela também usava uma
estratégia que eu odiava. Quando não correspondíamos à sua vontade,
principalmente eu, ela “dava um gelo”. Aquilo me aniquilava internamente. Ficava
um dia inteiro ou até dois, sem falar comigo. Eu era o alvo principal, pois a
vida toda, meus irmãos foram mais próximos de minha mãe. Parecia que eu era uma
ameaça constante, pelo meu jeito de agir e pensar, desde criança. Dizia que eu parecia visita dentro de casa,
por gostar de ficar sozinha e costumava comentar, em tom sarcástico, que eu era
muito “evoluída”, com relação às questões morais. Eu dizia o que pensava, desde
mocinha, o que contrariava seu espírito conservador. Mas, pelo menos com ela,
conseguíamos conversar. Afirmava que
achava muito importante dialogar com os filhos e manteve isso por toda a vida.
Até os meus
dez, onze anos de idade, meu pai foi muito carinhoso comigo e com meus irmãos.
À medida que eu entrei na adolescência e passei a questionar algumas coisas em
casa, ele se afastou, fisicamente. Reprimia meu jeito de ser. Não aceitava
minha transformação de menina para mulher. Ou que queria ter amigos, ir às
festinhas e a partir dessa fase, nossa relação piorou muito. Para pedir alguma
coisa eu conversava com minha mãe, que fazia a ponte de comunicação do pai com
os filhos. Quando não dava certo, eu chorava muito, fazia um verdadeiro
escândalo dentro de casa, colocando à mostra minha rebeldia, o que os deixava
muito contrariados.
Ele sempre
utilizou sua autoridade para nos reprimir e eu achava isso uma injustiça. Por
ser a filha mais velha, fui a mais prejudicada. E a minha irmã, embora fosse
apenas um ano mais nova que eu, tinha outra personalidade e não sofreu tanto,
imagino. Já o meu irmão mais novo, por ser o único filho homem, nossa, coitado,
foi muito pressionado pelas exigências de meu pai, para que exercesse seu papel
masculino, com força e perfeição. Hoje entendo as dificuldades de meu irmão;
ele era uma garoto sensível e suave, nada daquilo que meu pai pregava condizia
com a sua personalidade.
Minha
primeira professora era uma mulher autoritária e nada afetuosa, o que fez de
minha primeira experiência escolar algo muito desprazeroso. Com ela eu aprendi
a ser dissimulada e mentirosa aos sete anos de idade. Não gostava de fazer a
lição de casa e quando ela passava de carteira em carteira para olhar os
cadernos, eu dava um jeito de me esconder na enorme sala com mais de 30 alunos,
ou ir ao banheiro sem vontade, ou beber água sem sede. Pedia para a empregada lá de casa escrever a
lição para mim. Impressionante como eu tinha coragem de fazer isso e ela fazia!
Um dia minha mãe ficou muito brava
conosco, a empregada e eu, quando pegou o meu caderno e viu a letra que não
tinha nada a ver com a minha.
Quando mudei
de escola, tive uma professora maravilhosa, a Dona Ruth. Ela mantinha a ordem da
classe com suavidade e leveza e colava estrelinhas em nossos cadernos, quando
fazíamos a lição direitinho. Passei a ser uma colecionadora de estrelinhas
douradas, além de me tornar uma das melhores alunas da classe. Não tinha do que
me rebelar, sua amorosidade me estimulou a ter amor e prazer pelos estudos.
Sempre fui
uma rebelde e isso se acentuou em minha adolescência e vida adulta. Desde cedo percebi que não adianta nada ser
repressor e chato com as crianças; isso causa o efeito contrário. E claro, criei
meus filhos de outro jeito, bem diferente dos meus pais comigo. Deu certo!
27/06/2020
Alto Paraíso de Goiás
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