quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias O mundo dos adultos




Meu pai, nascido em 1924 e criado “como homem”, trouxe para a sua família o machismo e autoridade inquestionáveis. E transmitiu muito bem esses conceitos retrógrados, principalmente para os filhos, pois minha mãe sempre foi uma mulher dona de suas opiniões, que não se submetia a ele e conhecia muito bem as estratégias para se manter firme em suas decisões e convencer meu pai delas.

Nos primeiros anos da infância, a autoridade desse casal sobre os filhos era diária e permanente. Não podíamos fazer muitas coisas como brincar na rua ou dormir na casa dos amiguinhos, inexistentes. Mas eles nunca foram de nos castigar fisicamente, com força. Meu pai costumava deixar um cinto de couro pendurado atrás da porta e quando estávamos mais rebeldes, ele nos ameaçava, mas nunca nos bateu. Apenas o seu olhar era suficiente para nos colocar no devido lugar.

Já mamãe, dependendo do dia, nos dava umas palmadas, quando estava irritadiça. Ela também usava uma estratégia que eu odiava. Quando não correspondíamos à sua vontade, principalmente eu, ela “dava um gelo”. Aquilo me aniquilava internamente. Ficava um dia inteiro ou até dois, sem falar comigo. Eu era o alvo principal, pois a vida toda, meus irmãos foram mais próximos de minha mãe. Parecia que eu era uma ameaça constante, pelo meu jeito de agir e pensar, desde criança.  Dizia que eu parecia visita dentro de casa, por gostar de ficar sozinha e costumava comentar, em tom sarcástico, que eu era muito “evoluída”, com relação às questões morais. Eu dizia o que pensava, desde mocinha, o que contrariava seu espírito conservador. Mas, pelo menos com ela, conseguíamos conversar.  Afirmava que achava muito importante dialogar com os filhos e manteve isso por toda a vida.

Até os meus dez, onze anos de idade, meu pai foi muito carinhoso comigo e com meus irmãos. À medida que eu entrei na adolescência e passei a questionar algumas coisas em casa, ele se afastou, fisicamente. Reprimia meu jeito de ser. Não aceitava minha transformação de menina para mulher. Ou que queria ter amigos, ir às festinhas e a partir dessa fase, nossa relação piorou muito. Para pedir alguma coisa eu conversava com minha mãe, que fazia a ponte de comunicação do pai com os filhos. Quando não dava certo, eu chorava muito, fazia um verdadeiro escândalo dentro de casa, colocando à mostra minha rebeldia, o que os deixava muito contrariados.

Ele sempre utilizou sua autoridade para nos reprimir e eu achava isso uma injustiça. Por ser a filha mais velha, fui a mais prejudicada. E a minha irmã, embora fosse apenas um ano mais nova que eu, tinha outra personalidade e não sofreu tanto, imagino. Já o meu irmão mais novo, por ser o único filho homem, nossa, coitado, foi muito pressionado pelas exigências de meu pai, para que exercesse seu papel masculino, com força e perfeição. Hoje entendo as dificuldades de meu irmão; ele era uma garoto sensível e suave, nada daquilo que meu pai pregava condizia com a sua personalidade.
Minha primeira professora era uma mulher autoritária e nada afetuosa, o que fez de minha primeira experiência escolar algo muito desprazeroso. Com ela eu aprendi a ser dissimulada e mentirosa aos sete anos de idade. Não gostava de fazer a lição de casa e quando ela passava de carteira em carteira para olhar os cadernos, eu dava um jeito de me esconder na enorme sala com mais de 30 alunos, ou ir ao banheiro sem vontade, ou beber água sem sede.  Pedia para a empregada lá de casa escrever a lição para mim. Impressionante como eu tinha coragem de fazer isso e ela fazia!  Um dia minha mãe ficou muito brava conosco, a empregada e eu, quando pegou o meu caderno e viu a letra que não tinha nada a ver com a minha.

Quando mudei de escola, tive uma professora maravilhosa, a Dona Ruth. Ela mantinha a ordem da classe com suavidade e leveza e colava estrelinhas em nossos cadernos, quando fazíamos a lição direitinho. Passei a ser uma colecionadora de estrelinhas douradas, além de me tornar uma das melhores alunas da classe. Não tinha do que me rebelar, sua amorosidade me estimulou a ter amor e prazer pelos estudos.
Sempre fui uma rebelde e isso se acentuou em minha adolescência e vida adulta.  Desde cedo percebi que não adianta nada ser repressor e chato com as crianças; isso causa o efeito contrário. E claro, criei meus filhos de outro jeito, bem diferente dos meus pais comigo. Deu certo!

27/06/2020
Alto Paraíso de Goiás



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