quarta-feira, 15 de julho de 2020

Memórias Veneração, fé, ídolos e religião





Quando menina, com uns 9 ou 10 anos de idade, morávamos no sítio. Em uma noite, a lua estava cheia, luminosa, por entre as nuvens. Não dava para ver o formato dela, mas apenas os raios de luz, brilhando no céu. Uma imagem muito esplendorosa e até hoje, ao fechar os olhos, consigo visualizá-la. Mas o mais importante foi o que se passou dentro de mim, naquele momento.

Na minha imaginação infantil e por estudar no Colégio Adventista, onde o mantra mais cantado era “Jesus em breve virá”, achei que sim, era chegado o momento, Jesus estava chegando!  Eu não tive uma orientação religiosa em casa, pois minha mãe mesmo sendo espírita, achava que deveríamos escolher a religião quando fôssemos adultos e o meu pai não ligava para nada disso. Só que no Colégio, a vocação religiosa era muito forte, o que acabou me influenciando.

E, naquela noite, com um misto de assombro, surpresa e até medo, fiquei olhando para o alto, pela janela da sala, até que a lua apareceu e desfez o encantamento, mas de uma forma linda. Naquele momento, senti um contato intenso com o meu divino interior e acredito que ali nasceu a minha fé, que me acompanha até hoje.

Com relação às pessoas que eu admirava em minha infância, vem a lembrança do meu falso avô, o vô Malta, marido da professora que criou minha mãe. Ele era um homem culto, jornalista, e isso me fascinava. Não havia ninguém como ele na família, do ponto de vista intelectual, quero dizer. Lembro que sempre tinha um livro, revista ou jornal em suas mãos. Conversava com outras pessoas, tinha amigos com quem discutia política e outros assuntos. Era um brasileiro cidadão do mundo. Naquela época não era fácil viajar e muito caro também; privilégio dos ricos. Por isso não viajava para o exterior, embora, em minha imaginação infantil, conhecesse todos os lugares do planeta.

Outro homem que eu admirava era o meu verdadeiro avô materno, que exercia um grau de fascinação sobre minha menina. Augusto Penna Firme era o seu nome. Caiçara, conhecedor de ervas e remédios naturais; hoje me lembra um Xamã ou Pajé, algo de que não tinha a mínima noção do significado, na época.
O Paulo, meu primo mais velho, era ligado às artes. Tocava piano e era fotógrafo. Eu o admirava por essas qualidades, mas nunca fomos próximos; na realidade ele era uns cinco anos mais velho que eu e nunca me deu a menor bola. Mesmo assim, eu gostava dele e foi o primo que teve uma trajetória não muito feliz; tornou-se alcoólatra e morreu antes de completar 50 anos, do coração. Para desgosto de minha tia Dora, uma mulher que me encantava.

A Tia Dora era linda, espontânea, alegre; casou-se com um homem rico, de família tradicional paulistana. Tinha um nível de vida bem superior ao nosso. Os filhos dela, Paulo e Marcos, foram criados com muita mordomia. Sempre nos visitava e tinha opiniões modernas sobre a vida e dizia o que pensava, quando conversava com a minha mãe, que era o oposto dela. Mesmo assim, eram boas amigas. Fazia longas viagens para o exterior e depois nos contava tudo. Ela enchia a casa com a sua energia. Eu a admirava muito, acredito que era um tipo de mulher que minha menina gostaria de ser, quando adulta.

Como eu ouvia rádio com frequência, os cantores me fascinavam. Beatles, Rita Pavone, Celly Campelo, Roberto Carlos e toda a turma da Jovem Guarda. Eu não perdia um programa deles na televisão. Adorava dançar “ Tomo um banho de lua...” Sabia todas as letras das músicas de cor. Mas além do rock, eu tinha também uma veia mais romântica e gostava de ouvir Dolores Duran ( A noite do meu bem) Nelson Gonçalves( Fica comigo essa noite), Carlos José ( Esmeralda), Cauby Peixoto ( Marina ), entre outras. Acho que devido à influência do meu pai, que era fã da Ângela Maria, a ponto de despertar ciúmes em minha mãe.

Ah, sim. Esse era o homem que eu mais admirava, meu pai. Ele era dinâmico, entusiasmado, otimista, um guerreiro. Sempre cheio de sonhos, planos, nunca se acomodou. Batalhava para garantir uma vida melhor para a família. Não tinha dinheiro, mas viajamos muito porque ele resolveu aprender a acampar, algo nada comum na década de 1960. Tornou-se sócio do Camping Clube do Brasil e por conta disso, conhecemos vários lugares, de norte a sul do país. Por trás daquela máscara de autoritário, havia um menino sensível, lúdico e sonhador, que gostava de descobrir novas paisagens. Isso me encanta e traz muitas saudades. Ele ainda é uma das pessoas que mais admiro/ admirei em minha vida.

01/07/2020
Alto Paraíso de Goiás




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