Quando
menina, com uns 9 ou 10 anos de idade, morávamos no sítio. Em uma noite, a lua
estava cheia, luminosa, por entre as nuvens. Não dava para ver o formato dela,
mas apenas os raios de luz, brilhando no céu. Uma imagem muito esplendorosa e
até hoje, ao fechar os olhos, consigo visualizá-la. Mas o mais importante foi o
que se passou dentro de mim, naquele momento.
Na minha
imaginação infantil e por estudar no Colégio Adventista, onde o mantra mais
cantado era “Jesus em breve virá”, achei que sim, era chegado o momento, Jesus
estava chegando! Eu não tive uma
orientação religiosa em casa, pois minha mãe mesmo sendo espírita, achava que
deveríamos escolher a religião quando fôssemos adultos e o meu pai não ligava
para nada disso. Só que no Colégio, a vocação religiosa era muito forte, o que
acabou me influenciando.
E, naquela
noite, com um misto de assombro, surpresa e até medo, fiquei olhando para o
alto, pela janela da sala, até que a lua apareceu e desfez o encantamento, mas
de uma forma linda. Naquele momento, senti um contato intenso com o meu divino
interior e acredito que ali nasceu a minha fé, que me acompanha até hoje.
Com relação
às pessoas que eu admirava em minha infância, vem a lembrança do meu falso avô,
o vô Malta, marido da professora que criou minha mãe. Ele era um homem culto,
jornalista, e isso me fascinava. Não havia ninguém como ele na família, do
ponto de vista intelectual, quero dizer. Lembro que sempre tinha um livro,
revista ou jornal em suas mãos. Conversava com outras pessoas, tinha amigos com
quem discutia política e outros assuntos. Era um brasileiro cidadão do mundo.
Naquela época não era fácil viajar e muito caro também; privilégio dos ricos.
Por isso não viajava para o exterior, embora, em minha imaginação infantil,
conhecesse todos os lugares do planeta.
Outro homem
que eu admirava era o meu verdadeiro avô materno, que exercia um grau de
fascinação sobre minha menina. Augusto Penna Firme era o seu nome. Caiçara,
conhecedor de ervas e remédios naturais; hoje me lembra um Xamã ou Pajé, algo
de que não tinha a mínima noção do significado, na época.
O Paulo, meu
primo mais velho, era ligado às artes. Tocava piano e era fotógrafo. Eu o
admirava por essas qualidades, mas nunca fomos próximos; na realidade ele era
uns cinco anos mais velho que eu e nunca me deu a menor bola. Mesmo assim, eu
gostava dele e foi o primo que teve uma trajetória não muito feliz; tornou-se alcoólatra e morreu antes de completar 50 anos, do coração. Para desgosto de
minha tia Dora, uma mulher que me encantava.
A Tia Dora
era linda, espontânea, alegre; casou-se com um homem rico, de família
tradicional paulistana. Tinha um nível de vida bem superior ao nosso. Os filhos
dela, Paulo e Marcos, foram criados com muita mordomia. Sempre nos visitava e
tinha opiniões modernas sobre a vida e dizia o que pensava, quando conversava
com a minha mãe, que era o oposto dela. Mesmo assim, eram boas amigas. Fazia
longas viagens para o exterior e depois nos contava tudo. Ela enchia a casa com
a sua energia. Eu a admirava muito, acredito que era um tipo de mulher que
minha menina gostaria de ser, quando adulta.
Como eu ouvia
rádio com frequência, os cantores me fascinavam. Beatles, Rita Pavone, Celly
Campelo, Roberto Carlos e toda a turma da Jovem Guarda. Eu não perdia um
programa deles na televisão. Adorava dançar “ Tomo um banho de lua...” Sabia
todas as letras das músicas de cor. Mas além do rock, eu tinha também uma veia
mais romântica e gostava de ouvir Dolores Duran ( A noite do meu bem) Nelson
Gonçalves( Fica comigo essa noite), Carlos José ( Esmeralda), Cauby Peixoto (
Marina ), entre outras. Acho que devido à influência do meu pai, que era fã da
Ângela Maria, a ponto de despertar ciúmes em minha mãe.
Ah, sim.
Esse era o homem que eu mais admirava, meu pai. Ele era dinâmico, entusiasmado,
otimista, um guerreiro. Sempre cheio de sonhos, planos, nunca se acomodou.
Batalhava para garantir uma vida melhor para a família. Não tinha dinheiro, mas
viajamos muito porque ele resolveu aprender a acampar, algo nada comum na
década de 1960. Tornou-se sócio do Camping Clube do Brasil e por conta disso,
conhecemos vários lugares, de norte a sul do país. Por trás daquela máscara de
autoritário, havia um menino sensível, lúdico e sonhador, que gostava de
descobrir novas paisagens. Isso me encanta e traz muitas saudades. Ele ainda é
uma das pessoas que mais admiro/ admirei em minha vida.
01/07/2020
Alto Paraíso de Goiás
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