Em Alto
Paraíso, caminhava por todas as ruas da cidade. Sozinho, sem coleira nem
nenhuma identificação. E sempre voltava para casa. Uma vez, ao chegar, sua pele
estava rasgada, quase solta em uma parte de seu corpo, com formato de salsicha.
Fomos ao veterinário e lá ficou internado. No dia seguinte, enfaixado no peito
e na barriga, fugiu. Ele era assim, encontrava brechas e se mandava. Foi parar
em casa.
Quando veio
morar em Brasília, esse cãozinho inacreditável batia as quadras da 411 norte.
Primeiro com a sua tutora, depois sozinho. Sim, hoje seria inadmissível um fato
desses, mas há vinte anos acontecia regularmente. Ele descobriu um carrinho de
churrasco em frente a uma escola, que o obrigava a atravessar a L2 Norte. Ficou
amigo do dono e ganhava os restinhos de carne. Ficou amigo do zelador do prédio
que nos anunciava seu paradeiro, mas nem precisávamos ir atrás, na hora certa
ele voltava. Nunca fugiu, nem ficou sumido. Cãozinho leal, em sua presença
constante, durante treze anos de convivência.
De tanto
subir e descer os três andares do prédio, anos depois teve um problema na
coluna. Nem sei se naquela época havia cadeira de rodas para cães. Aos poucos
sua situação se deteriorou, perdeu o controle das pernas e dos esfíncteres. Não
merecia ficar assim, sem poder explorar as redondezas. Com dor no coração,
optamos pela eutanásia.
Quando
lembro desse cãozinho, chamado de Cocada, me vem à mente seu último olhar,
quando estava indo morrer. É algo que não consigo esquecer. Mas mesmo com um
sentimento de culpa e com a dúvida se estava certa, sinto que, naquele momento,
foi a melhor decisão a ser tomada. Sem poder andar, nem explorar novos espaços
e nem fazer novos amigos pela quadra, o melhor seria libertar seu corpinho castanho
dourado e deixar sua alma voar.
Sua
lembrança, lealdade e amizade permanecem em meu coração. E nunca mais quis ter
outro cachorro em minha vida.
5 de Agosto
de 2022
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