sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Um bicho em ação: meu cãozinho Cocada

 


 

Em Alto Paraíso, caminhava por todas as ruas da cidade. Sozinho, sem coleira nem nenhuma identificação. E sempre voltava para casa. Uma vez, ao chegar, sua pele estava rasgada, quase solta em uma parte de seu corpo, com formato de salsicha. Fomos ao veterinário e lá ficou internado. No dia seguinte, enfaixado no peito e na barriga, fugiu. Ele era assim, encontrava brechas e se mandava. Foi parar em casa.

Quando veio morar em Brasília, esse cãozinho inacreditável batia as quadras da 411 norte. Primeiro com a sua tutora, depois sozinho. Sim, hoje seria inadmissível um fato desses, mas há vinte anos acontecia regularmente. Ele descobriu um carrinho de churrasco em frente a uma escola, que o obrigava a atravessar a L2 Norte. Ficou amigo do dono e ganhava os restinhos de carne. Ficou amigo do zelador do prédio que nos anunciava seu paradeiro, mas nem precisávamos ir atrás, na hora certa ele voltava. Nunca fugiu, nem ficou sumido. Cãozinho leal, em sua presença constante, durante treze anos de convivência.

De tanto subir e descer os três andares do prédio, anos depois teve um problema na coluna. Nem sei se naquela época havia cadeira de rodas para cães. Aos poucos sua situação se deteriorou, perdeu o controle das pernas e dos esfíncteres. Não merecia ficar assim, sem poder explorar as redondezas. Com dor no coração, optamos pela eutanásia.

Quando lembro desse cãozinho, chamado de Cocada, me vem à mente seu último olhar, quando estava indo morrer. É algo que não consigo esquecer. Mas mesmo com um sentimento de culpa e com a dúvida se estava certa, sinto que, naquele momento, foi a melhor decisão a ser tomada. Sem poder andar, nem explorar novos espaços e nem fazer novos amigos pela quadra, o melhor seria libertar seu corpinho castanho dourado e deixar sua alma voar.

Sua lembrança, lealdade e amizade permanecem em meu coração. E nunca mais quis ter outro cachorro em minha vida.

 

5 de Agosto de 2022

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