Envelhecer
Tenho pensado muito sobre esse tema, ultimamente. E visto e ouvido falar sobre ele, acredito que por conta do envelhecimento da população brasileira, que está cada vez mais evidente. Somos uma sociedade que ignorou por décadas a existência dos velhos e, pior, desenvolveu uma série de crenças limitantes, tabus e mal tratos em relação à essa camada da população, tornando-a uma campeã em etarismo.
Essa forma de ser e existir, traz inúmeros prejuízos para os indivíduos que estão envelhecendo. Esses conceitos errôneos passam de geração em geração, de mãe para filhos e agravados pela falta de conhecimento sobre essa fase da vida, muitos se julgam velhos a partir dos cinquenta anos de idade, o que é um verdadeiro absurdo. E à medida que a idade avança, essas ideias se aprofundam e o envelhecimento torna-se sinônimo de doença, isolamento, tristeza, saudosismo e baixa autoestima.
Sinto que o envelhecimento é mais um ciclo da vida, que vai se tornando cada vez mais longo, à medida que a vida média das pessoas aumenta. Por ser uma mulher que está atravessando esse ciclo, percebo a necessidade contínua de me reinventar e buscar novas descobertas, aventuras, nem que sejam na esfera da imaginação, pois ela pode nos levar longe.
A nível interno, as camadas do autoconhecimento, como se fossem uma cebola, estão cada vez mais escassas e à medida que chegam ao seu miolo, tornam-se difíceis de retirar. Ou talvez requerem mais esforço para descolar. Ou por se encontrarem tão perto do centro, da essência, será que não é mais necessário mexer com elas? Me pergunto, mas não sei responder.
Será que isso contribui para que tantos velhos se acomodem, não façam quase nada e fiquem esperando a morte chegar? É preciso ir mais para dentro, escarafunchar o miolo da cebola, sem causar ferimentos. Só observar, acolher, apreciar o que existe de mais essencial e íntimo dentro de nós. O autoconhecimento não acaba nunca.
O tempo vai me dar essa e outras respostas. Por enquanto me mantenho ativa; faço o sacrifício (ou sacro ofício) diário da musculação, na tentativa de manter minha mobilidade e força. Tenho uma alimentação equilibrada, com umas quedas eventuais pelo açúcar, quando o coração aperta. Leio, estudo e escrevo, minhas principais fontes de prazer. Viajo, quando o dinheiro sobra.
Novos projetos e muita convivência, como sugerem os japoneses longevos, nem sempre brotam ou nem sempre é possível. A solidão e a solitude vão se alternando ao longo dos dias, uns melhores, outros nem tanto. Mas o fogo contínuo da vida permanece aceso, mesmo que às vezes seja necessário assoprar, com cuidado, para as lágrimas não apagarem a última chama, principalmente quando caio na tentação de assistir aos noticiários.
Às vezes me percebo uma velha antiga, repetindo os padrões de velhice deixados por minha mãe. Outras, na maior parte do tempo (ainda bem), vou buscando formas de viver uma nova velhice, criando uma revolução de costumes, como aconteceu na década de setenta, com a certeza que não podemos sucumbir. Mas sem luta, porque o momento não é de luta, mas de atitude e suavidade.
Às vezes vem o medo do julgamento. Será que estou me tornando uma velha ridícula? Não, isso faz parte do condicionamento sobre velhice para quem nasceu nos anos cinquenta. Mas eles surgem e como! Passo batido, deixo pra lá, mudo o pensamento, esvazio a mente. Me olho no espelho e me enxergo como uma velha bonita, cheia de alegria e tesão. Isso que importa, isso que quero cultivar, isso que me mantém viva, penso comigo mesma. Meu tempo é agora, aqui e agora.
Brasília, 11 de março de 2023.
Livia Penna Firme Rodrigues
foto de @rafamartinelli

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